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[Resenha] Precisamos falar sobre o Kevin

Categoria: Dicas de Leitura, Informação e Cultura

kevin [Resenha] Precisamos falar sobre o Kevin

Precisamos, sim, falar sobre o Kevin. E também sobre Eva Katchadourian, a mãe. O livro de Lionel Shriver se desenvolve por meio de cartas nas quais Eva escreve ao marido, Franklin, buscando analisar os motivos da tragédia que se abateu sobre sua vida. Kevin, nas vésperas de completar 16 anos, cometeu uma chacina em sua escola. A partir daí, a vida de Eva mudou radicalmente e as cartas funcionam quase como uma terapia: Eva revisita sua história e a história de seu filho, revisita seus amores e suas angústias, e fala corajosamente de todos os seus medos e anseios.

Eva não queria ser mãe. O livro poderia ser simplista e, a partir disso, explicar o crime de Kevin a partir de uma ausência materna e da falta de amor no lar. Franklin, no entanto, era um pai amoroso – mas o garoto parece, em vários momentos, questionar esse amor: de algum modo ele enxergava ali a farsa da “família feliz”. E, enquanto a narrativa é tecida cruel e docemente por Eva, já não se torna mais possível culpar a mãe – ou o pai, ou quem quer que seja: o grande mérito do livro está na desconstrução, em não dar respostas fáceis. A vida vazia: o vazio de Kevin. Mostrando-se sempre entediado, o rapaz despreza as paixões, as frivolidades e mesmo as pequenas doçuras. Em alguns momentos parece criticar um tal “american way of life” (ou, quem sabe, um “classe média way of life”) – crítica feita também pela própria Eva, conhecedora de diferentes países e culturas. Ela, no entanto, vive seu tédio ansiando por paixão: ama Franklin e anseia por revigorar o casamento, ama suas viagens e sente falta delas, talvez ame Kevin – quem sabe? – e ama Celia, a filha mais nova, tão doce que parece ser o oposto do primogênito. Quanto a Kevin, seu tédio é sem fundo: infinito. Se há paixões, não as vemos – decerto o ponto de vista da mãe, que o acha insondável, contribui para que não o compreendamos. Se Kevin ama Eva? É preciso ler o livro para tirar suas conclusões. Talvez precise dela. De que Kevin precisa? O que ele deseja?

Não sabemos. Sigo afirmando que não, o livro não dá respostas: o mérito da história é o emaranhado de questões. É possível que caiamos, vez ou outra, em clichês: se quisermos ver Kevin apenas como um monstro, ou se nos apegarmos ao (não) amor da mãe como resposta para tudo, ficaremos, talvez, mais confortáveis. O monstro, afinal, poderia ser detectado desde cedo – não fazem sucesso os livros que explicam como reconhecer um psicopata? E, quanto à culpa da mãe, ora, a resposta estaria apenas em “dar amor e carinho”, e, assim, nenhum mal poderia se abater sobre a família. Eva discorre sobre a classe média que se crê intocável, imune às tragédias, à violência, aos horrores – no seio de uma boa família, que mal poderia ocorrer? Sempre voltamos, portanto, para mãe e sua culpa: “foi ela quem não soube amar o suficiente”. Eva alimenta a própria culpa: sente-a, por vezes, à exaustão. Somos nós que, enquanto a lemos, podemos decidir absolvê-la ou não. Somos, de fato, intocáveis? Há um modo de prever violências e tragédias? Existem monstros? Como se produz um assassino?

O “monstro” nasce em nosso mundo e é feito do mesmo material que nós. Culpar a mãe é dizer que ela é a única responsável pela história de seu filho. Como se não houvesse tantos atravessamentos e entrelaçamentos – um modo de vida, um país, uma escola, meios de comunicação, crenças arraigadas, tédio, dor, angústia. Como se mãe e filho fossem isolados do mundo. Como se houvesse um jeito certo de ser mãe.

Não há.

Ao final do livro, ficamos com a sensação de que é possível, sim, odiar um filho. Assim como é perfeitamente possível amar um assassino. Fiquei com uma sensação amarga, com um toque de doçura – de dor, tristeza e ternura – lá no fundo.

Por Carla Jaia

cleardot [Resenha] Precisamos falar sobre o Kevin

[Resenha] As Crônicas de Gelo e Fogo – A Fúria dos Reis (livro dois)

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[ATENÇÃO: SPOILER DO PRIMEIRO LIVRO, A GUERRA DOS TRONOS... Se você não o leu, não siga em frente com esta resenha!]

 

cronicas de gelo e fogo 2 A Furia dos Reis [Resenha] As Crônicas de Gelo e Fogo   A Fúria dos Reis (livro dois)

Leia também a resenha de A Guerra dos Tronos.

A Fúria dos Reis, o segundo livro da série As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, deve ser manejado com cuidado: ele queima. Queima como o fogo dos dragões de Daenerys ou como o fogovivo – terrível substância feita por alquimistas e que arde infinitamente, até destruir tudo o que encontra em seu caminho.

Há um cometa vermelho cruzando os céus de Westeros e os Sete Reinos se encontram em plena guerra civil. São diversos os sentidos atribuídos ao traçado vermelho no céu: a glória, o perigo, a  guerra, a morte, os dragões. Também são múltiplas as vontades e as forças em combate nessa história. O jovem Robb Stark, declarado Rei do Norte, prepara-se para enfrentar os Lannister, ao mesmo tempo em que os dois irmãos mais jovens do falecido rei Robert Baratheon lutam ardentemente pelo trono. Stannis, frio e implacável, alia-se a uma misteriosa sacerdotisa chamada Melisandre – a Sacerdotisa Vermelha. Renly, belo e reluzente, conta com seu enorme exército, seus admiradores, seu charme e seu carisma. E, bem longe, Daenerys – uma ameaça ainda secreta – segue em marcha com seus dragões e seu khalasar. São muitos reis e muitas guerras, muita destruição e muita morte: enquanto os nobres se digladiam, o povo enfrenta a fome, a violência e a mais profunda devastação. Martin consegue descrever, com dureza e realismo, a crueldade das guerras pelo poder e o modo como os mais frágeis são dura e impiedosamente atingidos.

A magia ganha mais espaço na história: temos agora dragões, alquimistas, feiticeiros, um cometa misterioso e uma infinidade de encantos secretos. Deuses também se tornam mais importantes nessa trama: os deuses antigos, o deus da luz, o deus afogado, os Sete. As religiões aparecem ora como um alento para os que sofrem, ora como um semeador de discórdia e incompreensão: o mundo criado por Martin, afinal, não é tão diferente do nosso.

Os personagens, já bem trabalhados no primeiro livro, ganham mais beleza (ou horror) e profundidade. Sansa aparece mais forte e mais crescida, mais séria e mais triste – restam poucos traços da menina que se encantava com todas as maravilhas da vida de uma dama, embora ainda seja sutil e adoravelmente sonhadora. Arya, pequena guerreira, precisa ser ainda mais corajosa agora, porque os perigos são maiores e mais reais. Tyrion se mostra cada vez mais inteligente, ardiloso, brilhante, sarcástico, quase cruel e, por vezes, surpreendentemente encantador. Os capítulos mais poéticos – capazes de despertar as mais doces emoções – são, em minha opinião, aqueles dedicados ao Bran e à Catelyn: repletos de memórias, com pitadas de fé e magia, condensam a suavidade que muitas vezes falta a outras partes da história. Falta, sim, porque não poderia ser diferente: a vida está difícil – e cruel – para todos. A fome e a devastação nos reinos, o frio para além da muralha, a solidão, a morte, as traições.

O inverno está para chegar. Quem sobreviverá?

Por Carla Jaia

[Dicas de Leitura] O Pai Dos Burros: Dicionário De Lugares-Comuns E Frases Feitas

Categoria: Dicas de Leitura, Informação e Cultura

Você certamente já viu aquelas diversas pesquisas que medem a quantidade de mensagens publicitárias a que somos submetidos por dia. São números assustadores, que chegam perto dos 7 mil estímulos diários. Aposto que se houvesse um estudo para dizer o quanto dessas propagandas contém algum clichê, teríamos uma estimativa próxima dos 98%, ou mais.

Os lugares-comuns estão presentes em nosso cotidiano tanto quanto uma comercial de TV, um anúncio impresso ou banner na internet. E para não colocar a culpa só na publicidade, também nos textos jornalísticos e reportagens. E se você não quiser ficar obcecado, nem pense naquilo que fala nas suas conversas por aí.

pai dos burros werneck [Dicas de Leitura] O Pai Dos Burros: Dicionário De Lugares Comuns E Frases FeitasEm seu recém-lançado “O Pai Dos Burros: Dicionário De Lugares-Comuns E Frases Feitas” (Arquipélago Editorial, 208 páginas), o jornalista Humberto Werneck catalogou 4.640 clichês. Por cerca de quatro décadas, ele colecionou todas as frases comuns que pode encontrar, anotando em guardanapos, papéis e guardando em sua gaveta.

Segundo a pensadora alemã Hannah Arendt:

“Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feito por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera exigência. Se respondêssemos todo o tempo a essa exigência, logo estaríamos exaustos.”

Mais do que se transformar em um guia proibitório de palavras, “O Pai dos Burros” pretende recomendar uma despretensiosa desconfiança durante o ato de criar e escrever. As fórmulas prontas são o conforto medíocre de quem prefere não se arriscar com o desconhecido. Como Werneck diz, nada que saia tão facilmente pelos dedos, de forma automática, costuma ser verdadeiramente bom.

Portanto, “não fique profundamente abalado” se descobrir que vários dos seus termos preferidos, que “estão na ponta da língua”, integram o dicionário. “Sem sombra de dúvida”, o que você precisa fazer é “arregaçar as mangas” e “dedicar-se de corpo e alma” para reciclar o vocabulário com sua “imaginação fértil e “fugir do óbvio”.

Não “adianta chover no molhado”, encare a “árdua tarefa” e “aproveite o ensejo” em busca dos segredos de uma “receita de sucesso”. O livro “não é um divisor de águas”, mas certamente compila uma “vasta documentação” que exercerá “sérias consequências” no seu modo de escrever. Caso contrário, “fica o dito pelo não dito”.

Por Carlos Merigo, do Brainstorm9

[Resenha] Formaturas Infernais reúne principais escritoras de best-sellers dos EUA

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SOB O SIGNO DA VENDA
Formaturas Infernais reúne as principais escritotas best sellers dos EUA em histórias bem sucedidas que desvelam um outro lado do sonho da formatura.

convites [Resenha] Formaturas Infernais reúne principais escritoras de best sellers dos EUA

O que Meg Cabot, Stephenie Meyer, Kim Harrison, Michelle Jaffe e Lauren Myracle tem em comum além de serem escritoras, mulheres e terem livros best sellers? O intelectualóide ressentido de Paulo Coelho diria que é a produção de literatura de terceira. Ledo engano. A verdade é que essas escritoras, cujas obras estão adaptadas ao mercado editorial, estão reunidas em torno de Formaturas Infernais, coleção de contos da Galera Record, que toca fundo no imaginário em torno da principal festa do período adolescente: a formatura!

Mesmo que sejam autoras que escrevem para adolescentes e com uma linguagem que não consegue fugir ao estereótipo ianque, os contos estão inseridos no que H.P. Lovecraft denominou de literatura fantástica com linguagem de terror, muito mais que suas obras mais famosas.

Dividido em cinco contos, o primeiro, “A Filha do Exterminador”, traz como narrativa central o assassinato de um vampiro. Com um estilinho Buffy, Mary se vê envolvida na necessidade de salvar sua amiga (seduzida por um vampiro gostosão), coordenar seus sentidos e impulsos sexuais por Adam, lidar com o enclausuramento de sua mãe (aqui a metáfora da dona de casa) e as invencionices do pai imerso na tentativa de salvar a amada esposa (outra metáfora paternalista para o homem provedor). Uma história bem sessão da tarde.

Em “O Buquê”, de Lauren Myracle, a narrativa nos impulsiona à tristeza e segue a linha da enunciação do trágico tal como Edgar Alan Poe em “The Monkey’s Paw”, que já foi levada ao cinema, e apregoa a velha máxima do “cuidado com o que você deseja”. No conto seguinte, de Kim Harrison, intitulado “Madison Avery e a Morte”, apresenta a história de uma jovem que encontra a morte durante o baile de formatura. Ela dança com a morte e segue uma perseguição com o desenvolvimento de uma mitologia própria. O final, contudo, deixa bastante a desejar e é impossível não tentar achar alguma pista do final da história na internet.

“Salada Mista”, de Michele Jaffe, contradiz todas as anteriores lançando mão do humor, da tristeza e do mistério. A escritora traz personagens bem construídos e uma protagonista que tem seus conflitos explicados por livros de auto-ajuda. A última história, “Inferno na Terra”, a tão aguardada história de Stephenie Meyer, autora da série Crepúsculo é bem divertida e apresenta a tradicional busca pela felicidade construida em torno da dobradinha bem versus o mal. A rapidez do conto talvez não seja para Meyer que deixa seus leitores ensossados na falta de ineditismo e ponto de vistas mais apurado dos personagens.

Entre a necessidade de diversão e um bom livro, Formaturas Infernais cumpre seu papel enquanto resultado da reunião de escritórias best sellers. Um livro ideal e que promete divertir todos aqueles que vêem com cinismo as tradicionais encurraladas do sonho pueril.

Por Fernando de Albuquerque, Revista O Grito

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[Dica de Leitura] A Menina das Estrelas – Ziraldo

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meninadasestrelas [Dica de Leitura] A Menina das Estrelas   Ziraldo “Não se nasce mulher: torna-se”, afirma Simone de Beauvoir. Ziraldo também sabe disso. Escrevendo tanto sobre meninos maluquinhos, já afirmou em entrevista que seria difícil escrever sobre o universo feminino. Um universo outro. Tão cedo se faz a diferença entre os sexos. Penso que Ziraldo sabe que menina já é um pouco mulher. Nesse processo intenso de tornar-se. Não que sempre tenha sido. “Torna-se”, diz Simone. E inicia o tornar-se, quem sabe, a partir do nome. Daniela, Catarina, Beatriz. Lucia, Madalena, Maria. Maria Madalena e Maria Santa. E Pomba Gira, Joana D´arc, Dona Joana. A menininha de pés descalços e a de saltos altos precoces. Perversa, mãe, boa, amiga. Do infinito das estrelas. Na multiplicidade de um devir, de um vir-a-ser, do tornar-se muitas, transformar-se em outras.

Ziraldo sabia que seria difícil. Mas descobriu que era possível. Talvez – afirmo eu – porque universos de misturam. Planetas e Estrelas se transmutam, e o fazer-se mulher é possibilidade dos instantes todos, e não apenas dos corpos nascidos femininos. E Ziraldo, “homem feito”, transformou-se – no vácuo do instante – nas palavras de uma leitora que afirmou que as meninas eram das estrelas. A transformação se deu a partir de um encontro com jovens leitores no qual o autor comentava sobre seu livro O Menino da Lua, e e surgiu questinonamento sobre o fato de não haver meninas entre os amigos de Zélen, personagem principal da obra. As palavras da garota se fizeram verso pro livro Menina das Estrelas, que trata de mistérios, segredos e amores, numa visão feminina – reinventada a partir do olhar de Ziraldo. Um novo olhar.

Por Carla Jaia

meninadasestrelaslata [Dica de Leitura] A Menina das Estrelas   Ziraldo MENINA DAS ESTRELAS Ziraldo traça um perfil das meninas, abordando a infância e a passagem para a adolescência. O heroísmo dos pais, a cumplicidade entre amigas, o interesse pelos meninos. As ilustrações, do autor, são bastante expressivas e enriquecem as caracterizações. Para meninas compreenderem melhor seu universo. Vem numa lata e acompanha uma camiseta.

Encontre e-books de Ziraldo no PDL

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