![[Fragmentos Poéticos] tão funda solidao [Fragmentos Poéticos] tão funda](http://dumc.zip.net/images/solidao.jpg)
Recicle o corpo da cidade e cante: ela renascerá límpida.
Porque a cidade é o seu corpo e as vidas percorrem seus vãos – você é tão funda!
E nesses vãos-labirintos adentram-se as feras – e eu digo “feras” mas deveria dizer “amigos”. Não posso. Tudo hoje mostra os dentes e faz meu medo cantar. “Não é minha culpa!” – gritou você, em defesa de sua bondade. Não, não é. Jamais foi. Paranoicamente, eu crio. Os vãos, as frestas, as feras, as finas adagas da noite-estrela: quando brilhou pela primeira vez, eu só queria ficar em casa. Ficar em casa. Ficar em casa. Nunca implorei juventude outra que não a vontade de bebericar o mundo – de mansinho.
Sair, só pra escutar o silêncio de quem não implora. Quem mais precisa, cala. Quem mais deseja, sonha. E faz de suas mãos roídas um pedaço do mundo. Em que eu piso. E me afundo nos vãos. Do corpo da outra. Sou eu quem, agora, implora: preciso tornar úteis minhas mãos pequenas. Plantar vida e arrancar sementes – ser passarinho.
Sair, só por você. Você que, sem nome, inventa a pureza do amor. Você que me explica que tudo isso – por mais triste que possa se mostrar – é amor. Até mesmo quando gritam “fique” na hora em que desejo partir. Você que me explica que ao amor a gente renuncia, sem culpa. Porque – qualquer que seja o nome – amor que segura, mata.
Você que não morreu. Mas é tão velha que parece deus.
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Lua nova, estrela guia, Lola desconhecia a própria idade. Parecia às vezes que minguava de juventude, mesmo que suas belas avantajadas formas contassem história de uma vida longa, vivida, marcada nas linhas do rosto. “Jovens são minguantes, não crescentes” – afirmava ela com toda sua sabedoria lunar. Porque a juventude lhe sugava a concretude do corpo e fazia com que, a cada estalo de desejo, parecesse que a morte estava a rondar. Lola era uma cidade inteira sob o céu estrelado, marcada por luzes, labaredas, brita e medo. Alguma vontade forte, intensa, e o resto era uma perigosa imensidão. Lola um dia foi levada de carro para o abrigo dos loucos.
E foi lá que o tempo dançou insano e ela nunca mais soube o ano, o mês ou o dia da semana. Curiosamente conhecia as horas, que eram horas de sua derradeira rejuvenescência. De mulher marcada ganhou os contornos de uma bela jovem e visitou bailes, homens, namorados. Não quis casar, que era cansativo, e a bela jovem se tornou mocinha, de 15 anos e desengonçada. Sorria aflita em seu corpo lúcido e corria firme com suas pernas livres. De mocinha a pré-púbere, cada vez mais nova, Lola se tornou Lolita e bebê sem colo. E em novembro de seu aniversário terminou o tempo do qual ela era dona. Há quem diga, sem saber, que morria ali uma velhinha torta. Só Lola sabia da dor de ser criança morta. Ou lua crescente que minguou sozinha.
por Carla Carrion
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Créditos da imagem: Anastase Kyriakos
![femea femea [Fragmentos Poéticos] Se eu calar a fêmea…](http://ebooksgratis.com.br/wp-content/uploads/2009/09/femea.jpg)
Se eu calar a fêmea, o que me restará? As palavras certas, mas jamais certeiras e muito bem talhadas feito estátuas mortas? A voz, a voz, a voz que não amolece no canto da boca? A resposta dura, bem feita, insossa? É a fêmea quem fala, quem pulsa, quem ama, é a fêmea em versos tolices sonhos. A fêmea em sexo, vontade, fúria. Fêmea em lamúria. Mas é sempre a fêmea quem grita aqui e desencadeia minhas letras vãs – todas tortas, letras impossíveis de nossas manhãs…
Se eu calar a fêmea, nada mais me resta, a não ser os sinos da igreja antiga e aquela saudade mal pronunciada. Nada dito. Tudo calado cruelmente cortando os verbos. E papéis amarelados gastos pelo tempo. Rotos, sem vida, pobres documentos. Nem um vinho tinto pra contar história, nem a nossa língua perfurando corpos. Nada de serpentes no meu Paraíso…
Se eu calar a fêmea, resta-me um passado. Passado parado duro sem voltas. Tempo mudo estático feito de uma linha. Nada da elipse de meus saltos gritos. Nada da mulher que envenena estrelas…
por Carla Jaia
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![[Fragmentos Poéticos] Pela Fresta fresta [Fragmentos Poéticos] Pela Fresta](http://img44.imageshack.us/img44/8899/fresta.jpg)
Pela fresta você viu a minha festa. Eu estava nua e nem notei. E pela fresta você veio devagar e captou meus movimentos. Breves. Pela fresta você viu tudinho, você me invadiu, você prestou honrarias ao meu cansaço úmido, você cochilou um pouco e esperou que eu acordasse. Pela fresta você velou meu sono, amou minha insônia, você varou minha noite e esperou meu dia. Pela fresta você me adorou como eu adoro ser adorada, você olhou onde eu queria ser olhada e me permitiu, na distração, a glória. Você também descobriu meus segredos e soube que eu costumo falar sozinha em línguas estranhas, e você me tornou importante feito a dama das poesias; pela fresta você me fez poema e eu nunca mais desapareci. Pela fresta eu fui como nos livros: aquela para quem as cartas são escritas, para quem as melodias são inventadas, para quem o amor existe e para quem o sol nasce todas as manhãs. Pela fresta eu inventei você que me olhava, porque queria ser vista por um olho que não é meu. Pela fresta eu inventei o homem da fresta e nossos olhos se cruzaram num susto, fração de segundo. Pela fresta você viu minha festa e toda a bagunça no final. Você viu nas pequenezas dos meus míseros detalhes um pedaço bem grande do coração do mundo. Pela fresta você me viu e eu existi.
por Carla Jaia
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![[Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras) cecilian [Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras)](http://img10.imageshack.us/img10/9342/cecilian.jpg)
Rasgava todos os verbos, e se chamava Cecília. Certa vez gritou indecências raivosas para o moleque do outro lado da rua, e sempre era necessário que alguém segurasse seu corpinho miúdo que se irritava aos montes com coisas que pareciam quaisquer. Rasgava todos os verbos, e depois inventava de remendar alguns. Suminocair. Retrospeviver. Anabocantar. Os remendos de Cecília a gente nunca entendia. Brava feito um touro, com olhinhos de bezerro, linda como um segredo, uivava calada pra lua que era apenas dela. Cecília tinha de suas ternuras. Por isso às vezes me oferecia leite quente com chocolate e canela, e me pedia que eu sentasse para olhar seu álbum de fotografias. E eu via Cecília careteira, menininha mostrando a língua, e ela contava como havia sido dolorosamente feliz quando criança. E me mostrava os rascunhos antigos de desenhos mal feitos, e exibia tímida suas poesias mágicas e seu absurdo dom intelectual. Cecília era um touro, uma criança, um gênio. Por vezes a imaginei saindo de uma lâmpada de mil e uma noites, magra curvilínea dançando no ar. Explicando aos risos a terceira lei de Newton, e depois seriamente as leis de Deus e dos astros. Cecília também, além de remendar palavras, tecia cachecóis vermelhos no verão. E conhecia todos os folclores das matas. Mesmo sendo urbana e calçando sapatos lindos da moda. Sapatos que perdia numa escadaria, e que descalçavam o seu pé miúdo no final dos sonhos, logo após o baile. Um dia Cecília veio toda descabelada me contar que havia perdido em algum lugar sua máscara e que, a partir de então, seria bicho pra sempre. Então ela uivou inteira para a nossa lua e adormeceu pra sempre no vento da árvore dos segredos do nosso sempre avesso…
por Carla Jaia
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