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[Fragmentos Poéticos] A palavra do Homem

Categoria: Fragmentos Poéticos, Informação e Cultura

chuva1 [Fragmentos Poéticos] A palavra do Homem

Acompanhei a desova da chuva: princípio de amor. Pensei que deixaria ali rastros de fertilidade para a alegria vindoura: era aquela época em que eu acreditava que a terra era fêmea. Minha mãe, minha mulher, minha amante. Mas não. O vento secou a ternura e só restaram cálculos vazios: o que fazer com as moedas de amanhã, arroz ou entorpecente? Joana adormeceu na calçada e muitos ouviram dizer que os homens – aqueles homens da lei – despiram-na sem pudores e culparam suas curvas nascentes. Sempre há curvas a serem culpadas, já dizia aquela que nasceu mulher e aprendeu a se esconder assustada nas esquinas escuras. Ela quis defender Joana mas já não tinha forças para se levantar e não tinha coragem para denunciar: ninguém diz o nome do Homem e sai impune. E na vida há crimes mais importantes, contam por aí. Restou a ela, então, acolher Joana em um abraço infinito: “nós duas na rua e nossos corpos expostos mas tudo vai ficar bem até o próximo minuto se deus quiser amém. Amém. Amém. Amém”. Joana mal ouviu. Sentiu foi uma suave gota de amor em sua bochecha esquerda. Devia ser a chuva. Um rastro de fertilidade para a alegria vindoura. Quando a palavra do Homem não mais valerá. Nunca nunca nunca mais. “O Apocalipse vai ser nossa revolução”.

Por Carla Jaia

[Poesia] Solidão Sociável – Yan Masetto

Categoria: Literatura Nacional, Novos Escritores, Poesia Nacional

 

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Dedilhados

 
O salão vazio, os dedilhados no violão, a saia rodada, o olhar flamejante, o suave tom, o ritmo tocante, a dor, amor, é isso,já!Ah, doce toque. Passos. Batidas. Intensifica-se tudo. Ritmo marcado, inflama minh’alma. Doce brisa de seu ofegante fôlego. Braços entrecruzados, corpos situados no mesmo local do universo. A escuridão do palco é determinante, há de ser. Os dois seres ali, esvoaçam e ardem. Explodem! Ah, suave marcação, suave gesto, parada. Roda-se saia, corra para seu amado. A seco, o cinza é predominante, vultos interpassam, fazem barulho, correm, e descorrem. Ah, dedilhados. Retornam, venham, surjam e destronem as elevadas forças das idéias alheias, das invejas e doces venenos exaustivos. O fôlego não permite, mas eu continuo. Sem forças, não sei, mas que desejo que se torna combustível, sutileza vermelha, que cativa meu coração, aos leves movimentos, aos passos mais fortes, a todos pequenos barulhos e deslizes. O silêncio é forte, mas não vence essa dupla, que anda, suspira, descansa e esvazia platéias. Aplausos, doces batidas entre as mãos, entre as gotas de suor, de pavor e amor. Toquem, violões, toquem, ouçam, és belo, és muito belo. Sua rosa, em sua vasta cabeleira negra como o cenário, obscuro, que camufla cada vontade, cada desejo, cada dedilhado íntimo.

***

Nada com gelo

 

Neblina,
cobre céus,
cobre vidas,
cobre almas,
cobre-me.

Céu,
sobre mar,
sobre ar,
sobre humano,
sobre terra,
sobre mim.

Braços,
abertos,
apertados,
encolhidos,
agarrados,
presos.

Coração,
palpitante,
pulsante,
latejante,
dolorido,
eloquente.

Alma,
alva,
salva,
perdida,
insandecida,
comovida.

Tudo,
és amor,
és ódio,
és tudo,
mas sem ser nada,
o nada é tudo,
tudo vira nada,
misturam-se,
viram-se nós.

Nós…
Segredos,
Mistérios,
Vitórias,
Carícias…
Nós…
divino !

Uma breve biografia de Yan Masetto, 21 anos, de Ribeirão Preto:

Faço faculdade de Letras. Gosto de Música classica, literatura, poesia, óperas, filmes, mangás, séries e de juntar o pessoal em casa pra tomar uma cerveja e comer uma pizza.

Adorador do silêncio, da tranqüilidade e da leitura. Creio que a Vida e a Arte são complementares, que elas são maravilhosamente necessárias para a rotina.

Foco-me na Literatura, área das Humanas magnífica, superior, da qual saem inúmeras curas, saudades, loucuras, tensões e imitações. Faço estudos sobre vários títulos clássicos, e simultaneamente, inspiro-me neles para minhas escritas e esboços artísticos.

Enfim, alguém que sabe bem o que dizer aos outros – continuar sempre, saber que todos os dias são dias para conquistar-se a Alegria, a plena Felicidade.

Para conhecer outros textos do autor, visite o blog Solidão Sociável.

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[Fragmentos Poéticos] Fuligem

Categoria: Fragmentos Poéticos

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Como se as pedras rezassem desde Outono – quando eu desfolhava quase-virgem -, terminei minha última carta. Aquela que se direcionava a ele – ou a ela, ou aos deuses. Então veio o delírio: e o delírio era uma flor aberta em pólen ou sangue e a minha fuligem era tudo o que eu tinha a oferecer. “Mas fuligem não alimenta flor” – segredou-me a criança, sem saber que eu era agora seca e poluída, eu era os rumos sem rumo da cidade amorfa: aquela que um dia engoliu o rapaz inteirinho. O rapaz, o rapaz, o rapaz: agora me lembro! Não era um delírio! E nem era um rapaz: era um senhor assim um tanto mais velho que o mundo ou que a fome e que me cantou umas glórias de amor. E me pediu moedas para matar aquela vontade de não sei o que. Perguntou minha graça, eu perguntei seu nome. Disse Jorge e me deu a bênção do Pai do Céu. Dei-lhe a mão e senti os calos. Ele disse que morava na rua e eu imaginei que havia sido, por muito tempo, um trabalhador desses que trabalham com as mãos. O dia inteiro sem parar. E então tinha agora sua casa coberta de escassas estrelas, um tanto de chuva e fome e vontade. Sempre havia a vontade e a bênção de Deus. Sempre havia segredo e coisas mais. Eu não podia saber se ele já havia amado, casado, feito filhos. Se desejava homens ou mulheres, se havia acariciado mansinho um cão malhado que havia sido seu na infância. Se teve uma tal infância de soltar pipas e aprender as letras na escola. Eu não podia saber – ou não queria? Teria perguntado, então? Oh, Deus, o delírio! Oh, Deusa, a flor aberta em pólen e sangue! Eu, fuligem. Sem saber semear. Acinzentando o mundo e depreciando os sonhos que não fui capaz de compreender. “O pólen me faz espirrar.” Então mataram as flores. As cores. As dores. Anoiteceu e eram apenas estrelas amortecidas. Parcas. Mas o moço, o rapaz, o senhor, o menino: todos eles um, uno, o ser, os tantos: tinham história. Não sei se de pipas ou de correntes, de bonecas ou de facas, de amores ou de sangue. Não sei. Eu não ouvi. Mas havia ali – a história que se tecia para um mundo além de mim. A história em teias infinitas: o mundo respira ali. Apesar da fuligem. Apesar de nós.

Por Carla Jaia

[Prosa Poética] Se eu soubesse que viria – João Paulo Vieira

Categoria: Novos Escritores, Poesia Nacional

living room [Prosa Poética] Se eu soubesse que viria   João Paulo Vieira

Se eu soubesse que viria…

(Por João Paulo Vieira)

 Se eu soubesse que viria, teria mudado o arranjo de flores. Novas flores estariam enfeitando a sala. Eu tiraria os copos sujos com resto de nescau no fundo, a poeira dos móveis do quarto. Se eu soubesse, arrumaria a cama, ainda desarrumada de dias atrás. Ainda há roupa suja espalhada pelos cantos do quarto, objetos por todo lugar, fora de alinhamento. Eu: uma bagunça só. Cabelo desgrenhado, roupa amassada, um hálito nada agradável de quem acabou de acordar. Se eu soubesse, mas você não avisa. Abriu o portão, duas voltas com a chave na porta da sala, quinze passos até meu quarto e me pega assim: de qualquer jeito. Me pega assim de qualquer jeito pelos quatro cantos do quarto, por cima dos objetos desalinhados, das roupas sujas, quebrando os copos sujos de nescau. Depois, começa a espirrar. Alergia, poeira. Meus olhos lacrimejam de ver você espirrando. Eu choro. Não, é cisco no meu olho, digo. Cinco minutos depois ainda há lágrima escorrendo a face. Não há mais cisco nenhum. É dor que não aguentava mais ficar enclausurada no peito. Se eu soubesse, teria me preparado psicologicamente, emocionalmente. Mas você nunca avisa, sempre chega sem bater na porta, trazendo sentimentos de volta, aquele tipo de sentimento que eu tento desde pequeno deixar do lado de fora.
Biografia: Nascido em Rio Branco-Acre, vinte e um anos, me acostumei a não depender de outras pessoas. A pior coisa do mundo são as pessoas parasitas. Necessitam estar ali, com alguém do lado, pois acreditam que é viver assim ou miseravelmente. Sou de câncer, e embora não acredite muito em horóscopo, está aí algo que consegue me definir melhor que os livros do Martin Page. Peguei gosto pela leitura há cinco anos, mas só virou um vício há pouco mais seis meses. Praticamente troco água por livros.
Sou estagiário em um Call Center, curso o sexto periódo de Administração, e escrevo/leio nas horas vagas.
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Para conhecer outros escritos do autor, visite o blog Nowhere man.

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[Fragmentos Poéticos] tão funda

Categoria: Fragmentos Poéticos, Informação e Cultura

solidao [Fragmentos Poéticos] tão funda

Recicle o corpo da cidade e cante: ela renascerá límpida.

Porque a cidade é o seu corpo e as vidas percorrem seus vãos – você é tão funda!

E nesses vãos-labirintos adentram-se as feras – e eu digo “feras” mas deveria dizer “amigos”. Não posso. Tudo hoje mostra os dentes e faz meu medo cantar. “Não é minha culpa!” – gritou você, em defesa de sua bondade. Não, não é. Jamais foi. Paranoicamente, eu crio. Os vãos, as frestas, as feras, as finas adagas da noite-estrela: quando brilhou pela primeira vez, eu só queria ficar em casa. Ficar em casa. Ficar em casa. Nunca implorei juventude outra que não a vontade de bebericar o mundo – de mansinho.

Sair, só pra escutar o silêncio de quem não implora. Quem mais precisa, cala. Quem mais deseja, sonha. E faz de suas mãos roídas um pedaço do mundo. Em que eu piso. E me afundo nos vãos. Do corpo da outra. Sou eu quem, agora, implora: preciso tornar úteis minhas mãos pequenas. Plantar vida e arrancar sementes – ser passarinho.

Sair, só por você. Você que, sem nome, inventa a pureza do amor. Você que me explica que tudo isso – por mais triste que possa se mostrar – é amor. Até mesmo quando gritam “fique” na hora em que desejo partir. Você que me explica que ao amor a gente renuncia, sem culpa. Porque – qualquer que seja o nome – amor que segura, mata.

Você que não morreu. Mas é tão velha que parece deus.

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