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[Homenagem] Feliz dia das mães

Categoria: Poesia

nae [Homenagem] Feliz dia das mães

Mãe

(Mário Quintana)

Mãe… São três letras apenas

As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

 

 

[Curiosidades] Entrevista com Mia Couto

Categoria: Curiosidades, Informação e Cultura

mia couto4 [Curiosidades] Entrevista com Mia Couto

Sua escrita é bela e profunda. Quase delicada. Brilhante na prosa e na poesia. Por meio da literatura, mostra-nos Moçambique em sutileza e encanto. Excelente escritor da língua portuguesa, o moçambicano Mia Couto conta um pouco de sua vida e de suas escolhas nessa excelente entrevista ao jornal português ionline.pt.

Segue a entrevista na íntegra (Fonte: O País):

De onde vem o nome Mia?

Vem de um convívio que eu tinha com gatos, com dois, três anos. É óbvio que eu não me lembro, mas os meus pais contam-me, e têm fotos para comprovar, que eu comia com gatos, dormia com gatos, pensava que era um deles. Eram gatos vadios que foram para a nossa varanda e ali ficaram. E um dia decidi que queria ser chamado Mia. Eles aceitaram e passei a chamar-me assim. Acho que foi o meu primeiro acto de ficção.

Estudou Medicina durante dois anos, mas desistiu para ser jornalista, em 1974. O que é que aconteceu?

Fui para Medicina porque queria ser psiquiatra. Mas depois desiludi-me, porque tinha uma visão romântica, daquela coisa da psicanálise, do tempo em que se está com alguém de forma à terapêutica ser sobretudo relacional. Quando visitei o hospital psiquiátrico, percebi que a conversa era outra. A clausura e a violência… e já estava muito ligado aos movimentos pela independência, fazia mais política do que estudava. E a Frelimo, que na altura ainda estava na clandestinidade, disse que eu devia ser jornalista, que devia infiltrar-me – o termo usado era este – e eu comecei a minha carreira como infiltrado.
E foi uma carreira duradoura.
Eles sugeriram que eu ficasse só um ano e depois retomava os estudos, porque o país precisava de médicos, e acabei por ficar 11 anos. Foi óptimo, porque aprendi muito e uma ou outra coisa que foi muito importante para mim.

Chegou a ser director da Agência de Informação de Moçambique.

Na altura era preciso criar uma agência que desse luz à nossa luta. No momento em que ela estava a ser instalada, viajei por todo o país para criar uma rede de contactos e correspondentes. Foi muito interessante.
Como estava o espírito moçambicano na altura?
Foi um momento épico, a quase totalidade do país estava a favor do que estava a acontecer. A Frelimo na altura era o país. O mal é que se convenceu de que era mesmo. Havia uma festa permanente, uma espécie de um sonho, em que tudo era possível. Mas é óbvio que depois esses momentos têm uma duração muito breve. Vivíamos numa espécie de nuvem e pôr os pés no chão é sempre duro.
Porque decidiu deixar o jornalismo? Ficou desiludido?
Foi uma aprendizagem, mais que uma desilusão. Aprendi que esse projecto de mudar o mundo e torná-lo mais justo não funciona por modelos ou imposições externas. Tem de ter tempo e fazer-se de uma geração para a outra. Saí, primeiro, por uma razão ideológica. Quando percebi que não era exactamente aquilo, decidi que não queria ser cúmplice dessa mentira. Ainda voltei para Medicina, mas durou dois dias, vi que não era o que queria fazer. Num país como aquele, ser médico era uma obrigação que eu não podia suportar. Seria uma entrega missionária.
E foi estudar Biologia. Porquê?
Tinha essa paixão e pensei que poderia trabalhar com os grandes mamíferos nas reservas. Junto da minha cidade natal existe o parque Gorongosa, que é uma coisa extraordinária, e a minha paixão era trabalhar nesse ambiente, distante da idade e das minhas próprias referências.
Aos 14 anos teve os seus primeiros poemas publicados no jornal. Em que é que um miúdo tão novo se inspira?
A maior parte da inspiração eram as meninas por quem eu me apaixonava. Platonicamente, porque eu era muito tímido, acho que me apaixonava três, quatro vezes por dia. Mas não tinha essa capacidade de sair de mim e falar, apresentar-me ao mundo. Então vivia tudo isso em ficção. E lembro-me que um dos poemas publicados foi para o meu pai, que era poeta. E a minha mãe uma contadora de histórias.
Tem irmãos?
Tenho dois, eu sou o do meio. E tenho aquela síndrome de irmão do meio. Acreditava que era muito mal-amado, mas obviamente fui tão amado quanto os outros.
Mas por que esse sentimento?
Lembro-me que… nós não éramos ricos. O meu pai era jornalista e teve de fugir de Portugal por razões políticas e nós tínhamos uma situação muito regrada. E era assim que eu pensava e não era verdade: quando havia bife, os maiores eram para o mais velho porque precisava e para o mais novo que estava a crescer e também precisava, e eu ficava com o pequeno. Mas o mais importante é que vivíamos numa casa da poesia, muito longe do mundo e da realidade, e isso marcou-nos muito a todos.
De que forma?
Vivíamos num mundo à parte. Os meus pais contavam muitas histórias, porque era uma maneira de visitarem Portugal. Conheci o país através de histórias.
De onde são os seus pais?
São do Norte. O meu pai da zona do Porto e a minha mãe de Trás-os-Montes. Foram para Moçambique no princípio dos anos 50 e nós todos nascemos lá.
Em 1971 mudou-se da Beira, onde nasceu, para Maputo. Foi sozinho? Como foi a mudança?
Fui sozinho. Tinha 16 anos. Foi um renascimento. E para mim, que era um miúdo tímido, com muito pouco jeito para viver e que inventava uma vida à parte, foi óptimo. Uma escola de vida, de realidade. Tenho uma filha que vem agora estudar para Lisboa, tem 21 anos, e a grande questão para mim não é que ela aprenda, faça um curso, mas que aprenda a gerir o seu tempo, a valer-se a si própria, saiba conquistar aquilo de que precisa. Essa é a grande escola, não me importa que ela não tenha uma grande nota.
Disse que era tímido. Os seus irmãos aborreciam-no por isso? 

Os meus pais usavam os meus irmãos como termo de comparação. “O teu irmão tem estes anos e já vai às compras sozinho e traz tudo certo”. O meu pai, sendo do Porto, chamava-me morcão. Eu era um tipo pasmado, distraído. A certa altura, deu-me um bocado de jeito, porque era dispensado das tarefas domésticas, porque partia, estragava, perdia. Os meus irmãos olhavam para aquilo como uma meia verdade, “este tipo já está a inventar para tirar partido disto”…

Nos seus livros, percebe-se que em Moçambique a ligação aos antepassados é muito importante. Também vive isso?
Vivo, mas de outra maneira. Tenho uma mistura de grandes coisas, de sistemas, com esse mundo não visível. Por um lado, sou materialista, no sentido em que acredito na matéria. Não tenho religião, mas sou muito religioso.
Como é que isso funciona?
Não tenho crença num Deus particular, não sigo uma religião, mas preciso muito de estar em comunhão com o não visível. Uma pessoa quando pensa em não visível pensa logo em espíritos, mas, por exemplo, a beleza e a harmonia são aquilo que não está imediatamente visível. A religião africana, que nem tem nome, a gente chama-lhe animista, mas não é, acaba por ser a tolerância. Em todas as religiões moçambicanas há uma coisa em comum que é rezar aos antepassados. Os deuses são os antepassados de cada um. Eu tenho os meus, você tem os seus e nenhum é melhor que o outro. Há coisas que existem em África que são muito felizes. Por exemplo, a ideia de que alguns animais têm alma. Isso ajuda a descentralizar o homem. Achamos sempre que somos únicos e especiais, o topo da evolução, e não é nada disso.
Que animais, segundo os moçambicanos, têm alma?
A hiena, o macaco-cão, os hipopótamos, o leão. E rezam a esses espíritos dos animais. Gosto disso, põe-nos em pé de igualdade em termos espirituais, ou seja, aceitar que o outro tem espírito e que temos de lhe pedir favores. Isso é fantástico.

[Fragmentos Poéticos] A palavra do Homem

Categoria: Fragmentos Poéticos, Informação e Cultura

chuva1 [Fragmentos Poéticos] A palavra do Homem

Acompanhei a desova da chuva: princípio de amor. Pensei que deixaria ali rastros de fertilidade para a alegria vindoura: era aquela época em que eu acreditava que a terra era fêmea. Minha mãe, minha mulher, minha amante. Mas não. O vento secou a ternura e só restaram cálculos vazios: o que fazer com as moedas de amanhã, arroz ou entorpecente? Joana adormeceu na calçada e muitos ouviram dizer que os homens – aqueles homens da lei – despiram-na sem pudores e culparam suas curvas nascentes. Sempre há curvas a serem culpadas, já dizia aquela que nasceu mulher e aprendeu a se esconder assustada nas esquinas escuras. Ela quis defender Joana mas já não tinha forças para se levantar e não tinha coragem para denunciar: ninguém diz o nome do Homem e sai impune. E na vida há crimes mais importantes, contam por aí. Restou a ela, então, acolher Joana em um abraço infinito: “nós duas na rua e nossos corpos expostos mas tudo vai ficar bem até o próximo minuto se deus quiser amém. Amém. Amém. Amém”. Joana mal ouviu. Sentiu foi uma suave gota de amor em sua bochecha esquerda. Devia ser a chuva. Um rastro de fertilidade para a alegria vindoura. Quando a palavra do Homem não mais valerá. Nunca nunca nunca mais. “O Apocalipse vai ser nossa revolução”.

Por Carla Jaia

[Fragmentos Poéticos] Olhares

Categoria: Fragmentos Poéticos

 magritte [Fragmentos Poéticos] Olhares

Tendo à loucura e

- dessa tendência triste e mansa -

faço um olhar doce-feroz,

disfarço na palavra o grito,

desteço na certeza os véus:

faço nudez

- mas só aqui dentro, meu bem,

só aqui dentro:

escondo-me daquilo que me olha:

O caos

o cais

o vento.

Cócegas na garganta

vazia:

a minha voz morreu.

 

Faz frio na loucura que me puxa:

perseguem-me nas ruas-madrugadas

engravidam-me de luas sufocadas

exigem o sacrifício do meu-filho

- de Deus -

fazem-me guilhotinas e fogueiras

- ou aquela cadeira que me queima -

:eles:

A chuva

o silêncio

a lua cheia.

O lobo que me engole

criancinha:

ninguém ouviu,

nem eu.

Matam-me!

E, sem saber se posso,

morro.

Sempre um tanto.

Sempre um pouco.

Sempre há alguém olhando.

Dizem que é deus -

ou aquele que

- à esquerda dele -

tombou do paraíso desgraçado.

 

“Fecha os olhos, meu bem,

pra não ouvir…”

Por Carla Jaia

 

Imagem: La réponse imprévue, Magritte

[Poesia] Solidão Sociável – Yan Masetto

Categoria: Literatura Nacional, Novos Escritores, Poesia Nacional

 

Dan%C3%A7a Flamenca 01 [Poesia] Solidão Sociável   Yan Masetto

Dedilhados

 
O salão vazio, os dedilhados no violão, a saia rodada, o olhar flamejante, o suave tom, o ritmo tocante, a dor, amor, é isso,já!Ah, doce toque. Passos. Batidas. Intensifica-se tudo. Ritmo marcado, inflama minh’alma. Doce brisa de seu ofegante fôlego. Braços entrecruzados, corpos situados no mesmo local do universo. A escuridão do palco é determinante, há de ser. Os dois seres ali, esvoaçam e ardem. Explodem! Ah, suave marcação, suave gesto, parada. Roda-se saia, corra para seu amado. A seco, o cinza é predominante, vultos interpassam, fazem barulho, correm, e descorrem. Ah, dedilhados. Retornam, venham, surjam e destronem as elevadas forças das idéias alheias, das invejas e doces venenos exaustivos. O fôlego não permite, mas eu continuo. Sem forças, não sei, mas que desejo que se torna combustível, sutileza vermelha, que cativa meu coração, aos leves movimentos, aos passos mais fortes, a todos pequenos barulhos e deslizes. O silêncio é forte, mas não vence essa dupla, que anda, suspira, descansa e esvazia platéias. Aplausos, doces batidas entre as mãos, entre as gotas de suor, de pavor e amor. Toquem, violões, toquem, ouçam, és belo, és muito belo. Sua rosa, em sua vasta cabeleira negra como o cenário, obscuro, que camufla cada vontade, cada desejo, cada dedilhado íntimo.

***

Nada com gelo

 

Neblina,
cobre céus,
cobre vidas,
cobre almas,
cobre-me.

Céu,
sobre mar,
sobre ar,
sobre humano,
sobre terra,
sobre mim.

Braços,
abertos,
apertados,
encolhidos,
agarrados,
presos.

Coração,
palpitante,
pulsante,
latejante,
dolorido,
eloquente.

Alma,
alva,
salva,
perdida,
insandecida,
comovida.

Tudo,
és amor,
és ódio,
és tudo,
mas sem ser nada,
o nada é tudo,
tudo vira nada,
misturam-se,
viram-se nós.

Nós…
Segredos,
Mistérios,
Vitórias,
Carícias…
Nós…
divino !

Uma breve biografia de Yan Masetto, 21 anos, de Ribeirão Preto:

Faço faculdade de Letras. Gosto de Música classica, literatura, poesia, óperas, filmes, mangás, séries e de juntar o pessoal em casa pra tomar uma cerveja e comer uma pizza.

Adorador do silêncio, da tranqüilidade e da leitura. Creio que a Vida e a Arte são complementares, que elas são maravilhosamente necessárias para a rotina.

Foco-me na Literatura, área das Humanas magnífica, superior, da qual saem inúmeras curas, saudades, loucuras, tensões e imitações. Faço estudos sobre vários títulos clássicos, e simultaneamente, inspiro-me neles para minhas escritas e esboços artísticos.

Enfim, alguém que sabe bem o que dizer aos outros – continuar sempre, saber que todos os dias são dias para conquistar-se a Alegria, a plena Felicidade.

Para conhecer outros textos do autor, visite o blog Solidão Sociável.

Caso também queira ter sua obra publicada em nosso site, participe do Projeto Novos Escritores.

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