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[Romance] O Cemitério dos Vivos – Lima Barreto

Categoria: Literatura Nacional, Livros (E-books Grátis), Romances Nacionais

cemiterio inicial [Romance] O Cemitério dos Vivos   Lima Barreto

Fruto da experiência de Lima Barreto quando esteve internado nos Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, o Cemitério dos Vivos é uma obra valiosíssima para quem deseja conhecer um pouco da história da loucura no Brasil. Uma mistura de ficção e realidade, este livro – que se encontra em domínio público – é tão belo quanto devastador: Barreto descreve miniciosamente a realidade do hospício, toda a dor que ali se produzia, o abandono, a marginalização.

Dividido em uma parte de memórias (‘O Diário do Hospício’) e uma tentativa de ficcionalizar essa vivência (no romance ‘O Cemitério dos Vivos’, que não chegou a concluir), o livro traz os relatos de seu segundo período de confinamento, iniciado no Natal de 1919, após uma noite vagando em delírio pelos subúrbios do Rio de Janeiro.

Sobre a loucura, trazemos aqui um trecho do livro:

“A loucura se reveste de várias e infinitas formas; é possível que os estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classificação, mas ao leigo ela se apresenta como às árvores, arbustos e  lianas de uma floresta: é uma porção de coisas diferentes.
Uma generalização sobre o seu fundo pecaria pela base. Choques morais, deficiência de inteligência, educação, instrução, vícios, todas essas causas determinam formas variadas e desencontradas de loucura; e, às vezes, nenhuma delas o é.
Apela-se para a hereditariedade que tanto pode ser causa nestes como naqueles; e que, se ela fosse exercer tão despoticamente o seu poder, não haveria um só homem de juízo, na terra. É bastante pensar que nós somos como herdeiros de milhares de avós, em cada um de nós se vem encontrar o sangue, as taras deles; por força que, em tal multidão, há de haver  detraqués,  viciosos, etc., portanto a hereditariedade não há de pesar só sobre este e sobre aquele, cujos antecedentes são conhecidos, mas sobre todos nós homens. Por ser remota? Mas as forças da natureza não contam o tempo; e, às vezes mesmo, as mais poderosas só se fazem notar quando se exercem lentamente, durante séculos e séculos.”

O Cemitério dos Vivos – Lima Barreto

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[Resenha] Precisamos falar sobre o Kevin

Categoria: Dicas de Leitura, Informação e Cultura

kevin [Resenha] Precisamos falar sobre o Kevin

Precisamos, sim, falar sobre o Kevin. E também sobre Eva Katchadourian, a mãe. O livro de Lionel Shriver se desenvolve por meio de cartas nas quais Eva escreve ao marido, Franklin, buscando analisar os motivos da tragédia que se abateu sobre sua vida. Kevin, nas vésperas de completar 16 anos, cometeu uma chacina em sua escola. A partir daí, a vida de Eva mudou radicalmente e as cartas funcionam quase como uma terapia: Eva revisita sua história e a história de seu filho, revisita seus amores e suas angústias, e fala corajosamente de todos os seus medos e anseios.

Eva não queria ser mãe. O livro poderia ser simplista e, a partir disso, explicar o crime de Kevin a partir de uma ausência materna e da falta de amor no lar. Franklin, no entanto, era um pai amoroso – mas o garoto parece, em vários momentos, questionar esse amor: de algum modo ele enxergava ali a farsa da “família feliz”. E, enquanto a narrativa é tecida cruel e docemente por Eva, já não se torna mais possível culpar a mãe – ou o pai, ou quem quer que seja: o grande mérito do livro está na desconstrução, em não dar respostas fáceis. A vida vazia: o vazio de Kevin. Mostrando-se sempre entediado, o rapaz despreza as paixões, as frivolidades e mesmo as pequenas doçuras. Em alguns momentos parece criticar um tal “american way of life” (ou, quem sabe, um “classe média way of life”) – crítica feita também pela própria Eva, conhecedora de diferentes países e culturas. Ela, no entanto, vive seu tédio ansiando por paixão: ama Franklin e anseia por revigorar o casamento, ama suas viagens e sente falta delas, talvez ame Kevin – quem sabe? – e ama Celia, a filha mais nova, tão doce que parece ser o oposto do primogênito. Quanto a Kevin, seu tédio é sem fundo: infinito. Se há paixões, não as vemos – decerto o ponto de vista da mãe, que o acha insondável, contribui para que não o compreendamos. Se Kevin ama Eva? É preciso ler o livro para tirar suas conclusões. Talvez precise dela. De que Kevin precisa? O que ele deseja?

Não sabemos. Sigo afirmando que não, o livro não dá respostas: o mérito da história é o emaranhado de questões. É possível que caiamos, vez ou outra, em clichês: se quisermos ver Kevin apenas como um monstro, ou se nos apegarmos ao (não) amor da mãe como resposta para tudo, ficaremos, talvez, mais confortáveis. O monstro, afinal, poderia ser detectado desde cedo – não fazem sucesso os livros que explicam como reconhecer um psicopata? E, quanto à culpa da mãe, ora, a resposta estaria apenas em “dar amor e carinho”, e, assim, nenhum mal poderia se abater sobre a família. Eva discorre sobre a classe média que se crê intocável, imune às tragédias, à violência, aos horrores – no seio de uma boa família, que mal poderia ocorrer? Sempre voltamos, portanto, para mãe e sua culpa: “foi ela quem não soube amar o suficiente”. Eva alimenta a própria culpa: sente-a, por vezes, à exaustão. Somos nós que, enquanto a lemos, podemos decidir absolvê-la ou não. Somos, de fato, intocáveis? Há um modo de prever violências e tragédias? Existem monstros? Como se produz um assassino?

O “monstro” nasce em nosso mundo e é feito do mesmo material que nós. Culpar a mãe é dizer que ela é a única responsável pela história de seu filho. Como se não houvesse tantos atravessamentos e entrelaçamentos – um modo de vida, um país, uma escola, meios de comunicação, crenças arraigadas, tédio, dor, angústia. Como se mãe e filho fossem isolados do mundo. Como se houvesse um jeito certo de ser mãe.

Não há.

Ao final do livro, ficamos com a sensação de que é possível, sim, odiar um filho. Assim como é perfeitamente possível amar um assassino. Fiquei com uma sensação amarga, com um toque de doçura – de dor, tristeza e ternura – lá no fundo.

Por Carla Jaia

cleardot [Resenha] Precisamos falar sobre o Kevin

[Resenha] As Crônicas de Gelo e Fogo – A Fúria dos Reis (livro dois)

Categoria: Dicas de Leitura, Informação e Cultura

[ATENÇÃO: SPOILER DO PRIMEIRO LIVRO, A GUERRA DOS TRONOS... Se você não o leu, não siga em frente com esta resenha!]

 

cronicas de gelo e fogo 2 A Furia dos Reis [Resenha] As Crônicas de Gelo e Fogo   A Fúria dos Reis (livro dois)

Leia também a resenha de A Guerra dos Tronos.

A Fúria dos Reis, o segundo livro da série As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, deve ser manejado com cuidado: ele queima. Queima como o fogo dos dragões de Daenerys ou como o fogovivo – terrível substância feita por alquimistas e que arde infinitamente, até destruir tudo o que encontra em seu caminho.

Há um cometa vermelho cruzando os céus de Westeros e os Sete Reinos se encontram em plena guerra civil. São diversos os sentidos atribuídos ao traçado vermelho no céu: a glória, o perigo, a  guerra, a morte, os dragões. Também são múltiplas as vontades e as forças em combate nessa história. O jovem Robb Stark, declarado Rei do Norte, prepara-se para enfrentar os Lannister, ao mesmo tempo em que os dois irmãos mais jovens do falecido rei Robert Baratheon lutam ardentemente pelo trono. Stannis, frio e implacável, alia-se a uma misteriosa sacerdotisa chamada Melisandre – a Sacerdotisa Vermelha. Renly, belo e reluzente, conta com seu enorme exército, seus admiradores, seu charme e seu carisma. E, bem longe, Daenerys – uma ameaça ainda secreta – segue em marcha com seus dragões e seu khalasar. São muitos reis e muitas guerras, muita destruição e muita morte: enquanto os nobres se digladiam, o povo enfrenta a fome, a violência e a mais profunda devastação. Martin consegue descrever, com dureza e realismo, a crueldade das guerras pelo poder e o modo como os mais frágeis são dura e impiedosamente atingidos.

A magia ganha mais espaço na história: temos agora dragões, alquimistas, feiticeiros, um cometa misterioso e uma infinidade de encantos secretos. Deuses também se tornam mais importantes nessa trama: os deuses antigos, o deus da luz, o deus afogado, os Sete. As religiões aparecem ora como um alento para os que sofrem, ora como um semeador de discórdia e incompreensão: o mundo criado por Martin, afinal, não é tão diferente do nosso.

Os personagens, já bem trabalhados no primeiro livro, ganham mais beleza (ou horror) e profundidade. Sansa aparece mais forte e mais crescida, mais séria e mais triste – restam poucos traços da menina que se encantava com todas as maravilhas da vida de uma dama, embora ainda seja sutil e adoravelmente sonhadora. Arya, pequena guerreira, precisa ser ainda mais corajosa agora, porque os perigos são maiores e mais reais. Tyrion se mostra cada vez mais inteligente, ardiloso, brilhante, sarcástico, quase cruel e, por vezes, surpreendentemente encantador. Os capítulos mais poéticos – capazes de despertar as mais doces emoções – são, em minha opinião, aqueles dedicados ao Bran e à Catelyn: repletos de memórias, com pitadas de fé e magia, condensam a suavidade que muitas vezes falta a outras partes da história. Falta, sim, porque não poderia ser diferente: a vida está difícil – e cruel – para todos. A fome e a devastação nos reinos, o frio para além da muralha, a solidão, a morte, as traições.

O inverno está para chegar. Quem sobreviverá?

Por Carla Jaia

[Curiosidades] Discovery Kids lança série de animação 3D do Pequeno Príncipe

Categoria: Comunicados e Notícias, Curiosidades, Informação e Cultura

o pequeno principe [Curiosidades] Discovery Kids lança série de animação 3D do Pequeno Príncipe

A partir do dia 2 de dezembro de 2011, no horário das oito da noite, o Discovery Kids passou a transmitir a animação O Pequeno Príncipe, baseada na obra de Antoine de Saint-Exupéry. A história vocês já devem conhecer muito bem: um menino que sai de seu planeta minúsculo para explorar novos mundos, chega ao Planeta Terra e, aqui, aprende e ensina importantes lições.

O programa é realizado com tecnologia digital e ganhou o prêmio de Melhor Programa Infantil da França de Les Lauriers de la Télévision 2010, o troféu de melhor produção infantil europeia e o de melhor trilha sonora no Festival Cartoon on the Bay (Itália, 2011). Um dos responsáveis pelo projeto é Olivier d’Agay, diretor da organização que cuida dos direitos e legado de Antoine de Saint-Exupéry, de quem é sobrinho neto. Cada episódio dura cerca de uma hora e traz para as telas toda a beleza desse maravilhoso clássico da literatura. Confira você também: todas as sextas, às 20h, no Discovery Kids.

Para os saudosistas, selecionamos algumas das frases marcantes do livro:

“As pessoas adultas nunca entendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, de sempre lhes dar explicações.”

“Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz enquanto a contempla!”

“É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio.”

“Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…”

“Eis o meu segredo. Ele é muito simples: somente vemos bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

 

[Parabéns] 91 anos de Clarice Lispector

Categoria: Curiosidades, Informação e Cultura, Notícias

clarice [Parabéns] 91 anos de Clarice Lispector

“A família pouco a pouco foi chegando. O que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeites de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados – e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.” – assim se inicia o conto Feliz Aniversário, de Clarice Lispector.

O conto trata da festa de aniversário de 89 anos de uma senhora e traz, de forma pungente, as hipocrisias que atravessam relações familiares e a angústia da velhice, da solidão e do abandono. Se estivesse viva, Clarice completaria nesse sábado – dia 10 de dezembro – 91 anos de idade, dois a mais do que a personagem central de seu conto. O E-books Grátis faz, então, um post de Feliz Aniversário a essa escritora profunda e intensa que costumava tocar – e rasgar – a alma e os sentidos do leitor com seus contos e seus romances.

Clarice nasceu no dia 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na Ucrânia. Em março de 1922 chegou ao Brasil, em Maceió – AL, com sua família. Clarice viveu em Alagoas, em Pernambuco e, mais tarde, no Rio de Janeiro. Estudou Direito e deu aulas particulares de português e matemática. Seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, foi publicado em 1943. Clarice escreveu, escreveu, escreveu. Infinitamente, intensamente, loucamente. Lindamente. O Lustre, A Cidade Sitiada, Água Viva, A Paixão Segundo G.H., A Hora da Estrela e tantos outros. Em 9 de dezembro de 1977, às vésperas de completar 57 anos, Clarice morreu de câncer.

Aqui, ela persiste viva e intensa. Nós, nesta breve homenagem, deixamos alguns trechos de seus belos escritos:

“Sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro!” (Perto do Coração Selvagem)

 “Ficaram em silêncio muito tempo, um silêncio que não pesava. Até que ele, como se quisesse lhe dar alguma coisa, disse:

-Olhe para esse pardal, Lóri – mandou ele – não pára de ciscar o chão que aparentemente está vazio mas com certeza seus olhos vêem comida.

Obediente, ela olhou. E de súbito eis que o pardal alçou vôo, e na surpresa Lóri esqueceu-se de si própria e disse como uma criança para Ulisses:

-É tão bonito que voa!
Falara com a inocência que usava nas aulas com as crianças, quando não temia ser julgada. Inquieta então olhou rápido para o lado de Ulisses. Ele a olhava. Com um susto Lóri notou: era um olhar… de amor?” (Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

“Não é confortável o que te escrevo. Não faço confidências. Antes me metalizo. E não te sou e me sou confortável; minha palavra estala no espaço do dia. O que saberás de mim é a sombra da flecha que se fincou no alvo. Só pegarei inutilmente uma sombra que não ocupa lugar no espaço, e o que apenas importa é o dardo”. (Água Viva)

“Se tivesse a tolice de se perguntar ‘quem sou eu?’ cairia estatelada e em cheio no chão. É que ‘quem sou eu?’ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.” (A Hora da Estrela)

“Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia – a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la –, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me mesmo seja de novo a mentira que vivo.” (A Paixão Segundo G. H.)

Sua história contada com mais detalhes, bem como sua obra completa, podem ser conferidas nessa página dedicada especialmente a Clarice Lispector.

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