“Tive o deleite de prefaciar o livreto escrito pelo meu caro amigo Felipe Pacheco. Trata-se de um escrito moral, não do ponto de vista dos moralizadores, como os padres e os crédulos, mas dos analistas da moral, dos que dão à moral um caráter problemático. Trata-se, afinal, de um escrito “para além do bem e do mal”, como diria o filósofo. A partir de uma reflexão acerca do cinema japonês, estuda o fenômeno da vingança e principia uma transvaloração dos valores ocidentais. Um texto grave e alegre, destituído de toda moralina.”(Sinopse por Rico)
“É só brincadeira” – Considerações sobre o cinema japonês e a vingança – Felipe Pacheco
Os homens que não amavam as mulheres (Män som hatar kvinnor, em Sueco), livro de suspense escrito por Stieg Larson, é o primeiro da Trilogia Millenium e deu origem, em 2009, a um filme homônimo dirigido pelo dinamarquês Niels Arden Oplev.
Aqueles que apreciaram o livro e o filme desejarão, sem dúvida, conferir também a versão hollywoodiana, dirigida por David Fincher (diretor de A Rede Social), que tem estreia prevista para o dia 21 de dezembro deste ano nos EUA e para 10 de fevereiro de 2012 nas telonas brasileiras.
A história trata da investigação do desaparecimento de Harriet Vanger – jovem herdeira de um império industrial - na vizinhança de Hedestad (Suécia), em 1966. Desde então, a cada ano, Henrik Vanger, o velho patriarca do clã, recebe uma flor emoldurada – o mesmo presente que Harriet lhe dava, até desaparecer. Intensa e surpreendente, a trama conta com uma personagem fascinante, Lisbeth Salander – uma jovem e excepcional investigadora e hacker -, que na primeira versão cinematográfica foi interpretada pela maravilhosa Noomi Rapace e, na versão americana, ganhará vida através da atriz Rooney Mara (foto abaixo) – que esteve bem como a ex-namorada de Mark Zuckerberg A Rede Social.
Vale lembrar que Stieg Larson recebeu o Prêmio Chave de Vidro para o Melhor Romance Criminal da Academia Sueca de Ficção Criminal, em 2006, pelo livro Os homens que não amavam as mulheres. Merece ser lido!
SÃO PAULO (Reuters) – Quincas Berro D’Água, nascido Joaquim Soares da Cunha, um dia foi um respeitado funcionário público. Mas isso foi há muitos anos, quando ele ainda acreditava na humanidade, na família, nos valores burgueses. Infelizmente, ele morre no dia em que completaria 72 anos. Esse detalhe, no entanto, não impede que seus quatro amigos – que estão mais para escudeiros – lhe dêem uma última noitada.
“Quincas Berro D’Água”, adaptação do romance “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, de Jorge Amado, roteirizada e dirigida por Sérgio Machado (“Cidade Baixa”), que chega aos cinemas do Brasil nessa sexta-feira, segue em linhas gerais a obra original, uma das mais vendidas do escritor baiano, morto em 2001.
O livro, no entanto, é apenas um ponto de partida – nunca o de chegada, ou seja, o longa não se limita apenas a explorar os personagens e situações do original.
Com elegância e respeito pelo original, Machado toma os personagens e temas de Jorge Amado para si e os transforma em personagens cinematográficos.
Fora das páginas do livro, eles ganham outra dimensão, outros significados, assim, como a morte do protagonista. Paulo José, que em seu currículo conta com personagens marcantes como o padre, de “O Padre e a Moça”, “Macunaíma”, ou Edu, de “Edu Coração de Ouro”, acaba de criar mais um tipo inesquecível – especialmente por conta de sua interpretação.
Pode parecer simples interpretar o papel de um morto, mas Paulo empresta ao personagem nuances e cores que faltam a muitos vivos (dentro e fora das telas). Seu risinho irônico é um comentário mordaz à hipocrisia de sua família que insiste em varrer para debaixo do tapete seu passado recente de boemia. Mariana Ximenes (“Hotel Atlântico”) faz a filha, Vanda, e Vladmir Brichta (“Romance”) é o genro almofadinha, acomodado na vidinha burguesa.
Essa é a família oficial. Mas, no fundo, mais conta aquela família de amigos que escolhemos para nós e, nesse quesito, Quincas estava muito bem servido com Pastinha (Flavio Bauraqui, de “Meu Nome não é Johnny”), Pé de Vento (Luis Miranda, de “Jean Charles”), Cabo Martim (Irandhir Santos, de “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”) e Curió (Frank Menezes, conhecido ator de comédia baiano, que também participou de filmes como “Tieta”).
Cada um tem o seu perfil, suas qualidades e fraquezas. Tal qual Dorothy e seus três amigos em “O Mágico de Oz”, Quincas e seu quarteto estão em busca de algo, para o grupo e para si – mas, talvez, não estejam cientes dessa jornada.
Pastinha é medroso, Pé de Vento é desbocado, o Cabo tem a bravura, mas talvez lhe falte um pouco de modéstia, e Curió é o eterno sonhador que busca um amor. Dos quatro, ele é a figura mais patética, querendo declamar versos com a maquiagem do rosto borrada de lágrimas.
Fora os amigos, Quincas deixa para trás um grande amor, Manuela, prostituta madura, melancólica e infeliz com a perda do amado. Marieta Severo, que faz a personagem, lhe confere uma dose de dignidade que talvez outra atriz não conseguisse.
O amor, que a muita coisa redime, é a razão de ser dessa mulher que, agora, sem Quincas estará sozinha. Com o peso da idade, talvez jamais encontre novamente outro homem para estar com ela. Amor mesmo, esse parece que foi só um.
Já a personagem da filha Vanda é mais bem desenvolvida no filme que no livro. A morte do pai, com quem ela não tinha contato há alguns anos, é uma catarse, um grito, um aviso de que a vida passa. A faz perceber como o tempo passa rápido e talvez não tenhamos chance de fazer tudo aquilo que queremos, pretendemos ou merecemos.
“Quincas Berro D’Água” deixa uma lição não apenas para Vanda. É preciso viver intensamente o presente. Quincas teve a chance de ganhar uma última noite de esbórnia, de festa com os amigos. Ele pode, mesmo morto, aproveitar a vida. Mas é um caso raro.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb
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VENEZA – O cineasta Júlio Bressane, símbolo do cinema independente brasileiro, volta ao universo literário de Machado de Assis para reavivar a repulsa das pessoas a ratos e esqueletos no filme “A Erva do Rato”, apresentado hoje no Festival Internacional de Cinema de Veneza.
Apresentado na seção Horizonte, “A Erva do Rato” é um filme exigente, apreciado após ser visto e que faz o público sofrer durante a exibição. Em entrevista coletiva, Bressane explicou que “não é uma adaptação de Machado de Assis, mas é uma tradução em imagens de seu espírito”.
A base literária do roteiro são dois contos do escritor, “Um esqueleto” e “A causa secreta”. Apesar disso, ”há poucas linhas deles no filme”, afirma Bressane, embora tenham sido feitas várias referências a ratos e os esqueletos, “as duas coisas que, em toda a história da arte e do homem, sempre provocaram repulsa”. Este “jogo semiótico” é protagonizado por Selton Mello e Alessandra Negrini, com quem o diretor já trabalhou em “Cleópatra” (2007).
O filme tem uma primeira máscara, nas palavras de Bressane: a literária. Com ela, é possível recuperar a qualidade de Machado de Assis (1839-1908) para “reinventar a língua portuguesa, com novas linhas formais e estruturas”, que resultam em uma narrativa cinematográfica insólita.
“A Erva do Rato” – o único veneno que não tem antídoto, segundo o filme –, começa em um cemitério no qual duas pessoas, cujos nomes são apenas Ele e Ela, se conhecem e são condenadas a ficarem juntas para sempre. A mulher se submeterá a partir de então ao homem na dura tarefa de transcrever as histórias que lhe conta e que encherão centenas de cadernos que consumirão sua energia.
A palavra protagoniza “A Erva do Rato” à primeira vista, mas “após esta primeira máscara há outra: a luz”, diz o diretor. Desta forma, as referências pictóricas aparecem ao redor da pintura de Edouard Manet (1832-1883) e, especialmente, do quadro “O almoço sobre a relva”, que impulsionou o Impressionismo, apesar de seu autor renegar o termo. “Fala da percepção e do desenvolvimento da luz. A luz é um processo químico e está antes dos atores e das cenas”, disse.
Julio Bressane, que é co-editor do filme junto com Rosa Dias, começou sua carreira em 1966 com o curta “Lima Barreto – Trajetória” e logo surgiu como um dos protagonistas do Cinema Novo brasileiro, onde desenvolveu uma carreira marcada por uma linguagem experimental, ritmo pausado e clara tendência estética.
Em 1985, realizou uma adaptação de Machado de Assis chamada “Brás Cubas”. Entre seus últimos títulos se destacam “Miramar” (1997) e “Dias de Nietzsche em Turim” (2001).