[Poesia] Receita de Ano Novo – Carlos Drummond de Andrade

Categoria: Literatura Nacional, Poesia Nacional

carlos drummond de andrade [Poesia] Receita de Ano Novo   Carlos Drummond de Andrade

 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

O E-books Grátis deseja um 2012 sempre sempre novo, a cada dia, a cada instante!

[Fragmentos Poéticos] Fuligem

Categoria: Fragmentos Poéticos

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Como se as pedras rezassem desde Outono – quando eu desfolhava quase-virgem -, terminei minha última carta. Aquela que se direcionava a ele – ou a ela, ou aos deuses. Então veio o delírio: e o delírio era uma flor aberta em pólen ou sangue e a minha fuligem era tudo o que eu tinha a oferecer. “Mas fuligem não alimenta flor” – segredou-me a criança, sem saber que eu era agora seca e poluída, eu era os rumos sem rumo da cidade amorfa: aquela que um dia engoliu o rapaz inteirinho. O rapaz, o rapaz, o rapaz: agora me lembro! Não era um delírio! E nem era um rapaz: era um senhor assim um tanto mais velho que o mundo ou que a fome e que me cantou umas glórias de amor. E me pediu moedas para matar aquela vontade de não sei o que. Perguntou minha graça, eu perguntei seu nome. Disse Jorge e me deu a bênção do Pai do Céu. Dei-lhe a mão e senti os calos. Ele disse que morava na rua e eu imaginei que havia sido, por muito tempo, um trabalhador desses que trabalham com as mãos. O dia inteiro sem parar. E então tinha agora sua casa coberta de escassas estrelas, um tanto de chuva e fome e vontade. Sempre havia a vontade e a bênção de Deus. Sempre havia segredo e coisas mais. Eu não podia saber se ele já havia amado, casado, feito filhos. Se desejava homens ou mulheres, se havia acariciado mansinho um cão malhado que havia sido seu na infância. Se teve uma tal infância de soltar pipas e aprender as letras na escola. Eu não podia saber – ou não queria? Teria perguntado, então? Oh, Deus, o delírio! Oh, Deusa, a flor aberta em pólen e sangue! Eu, fuligem. Sem saber semear. Acinzentando o mundo e depreciando os sonhos que não fui capaz de compreender. “O pólen me faz espirrar.” Então mataram as flores. As cores. As dores. Anoiteceu e eram apenas estrelas amortecidas. Parcas. Mas o moço, o rapaz, o senhor, o menino: todos eles um, uno, o ser, os tantos: tinham história. Não sei se de pipas ou de correntes, de bonecas ou de facas, de amores ou de sangue. Não sei. Eu não ouvi. Mas havia ali – a história que se tecia para um mundo além de mim. A história em teias infinitas: o mundo respira ali. Apesar da fuligem. Apesar de nós.

Por Carla Jaia

[Crônica] Organiza o Natal – Carlos Drummond de Andrade

Categoria: Literatura Nacional, Poesia Nacional

Carlos Drummond de Andrade Escrevendo [Crônica] Organiza o Natal   Carlos Drummond de Andrade

Organiza o Natal

(Carlos Drummond de Andrade – (Texto extraído do livro “Cadeira de Balanço”, Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.)


“Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso.

A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.”

O E-books Grátis deseja um lindo Natal-para-sempre aos seus leitores!

[Poesia] Antologia Poética – Vinicius de Moraes

Categoria: Literatura Nacional, Livros (E-books Grátis), Poesia Nacional

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Antologia Poética reúne maravilhosos poemas de Vinícius de Moraes. O volume se abre com uma Advertência:

“Poderia este livro ser dividido em duas partes, correspondentes a dois períodos distintos na poesia do A. A primeira, transcendental, freqüentemente mística, resultante de sua fase cristã, termina com o poema “Ariana, a mulher”, editado em 1936. Salvo, aqui e ali, umas pequenas emendas, a única alteração digna de nota nesta parte foi reduzir-se o poema “O cemitério da madrugada” às quatro estrofes iniciais, no que atendeu o A. a uma velha idéia de seu amigo Rodrigo M.F. de Andrade.
À segunda parte, que abre com o poema “O falso mendigo”, o primeiro, ao que se lembra o A., escrito em oposição ao transcendentalismo anterior, pertencem algumas poesias do livro Novos poemas, também representado na outra fase, e os demais versos publicados posteriormente em livros, revistas e jornais. Nela estão nitidamente marcados os movimentos de aproximação do mundo material, com a difícil mas consistente repulsa ao idealismo dos primeiros anos.
De permeio foram colocadas as Cinco elegias (1943), como representativas do período de transição entre aquelas duas tendências contraditórias, – livro também onde elas melhor se encontram e fundiram em busca de uma sintaxe própria.
Não obstante certas disparidades, facilmente verificáveis no índice, impôs-se o critério cronológico para uma impressão verídica do que foi a luta mantida pelo A.contra si mesmo no sentido de uma libertação, hoje alcançada, dos preconceitos e enjoamentos de sua classe e do seu meio, os quais tanto, e tão inutilmente, lhe angustiaram a formação.”

Encontramos neste livro, na véspera de Natal, um belo poema do autor:

Poema de Natal

(Vinicius de Moraes)

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Antologia Poética – Vinicius de Moraes

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Direitos autorais da obra cedidos pela família do autor

Veja também a primeira edição autografada na página da Brasiliana!

[Curiosidades] Edição Especial da Magali Jovem nas bancas

Categoria: Comunicados e Notícias, Curiosidades, Informação e Cultura

magalijovem1 [Curiosidades] Edição Especial da Magali Jovem nas bancas

No dia 8 de dezembro chegou às bancas de todo o país Magali Jovem Especial: Coração e Garra, uma edição linda e totalmente colorida, dedicada à melhor amiga da Mônica. Os fãs da versão Jovem da turminha criada pelo Maurício de Souza com certeza se apaixonarão.

A Magali é inspirada em uma das filhas do Maurício de Souza. Conta-se que a verdadeira comia uma melancia inteira quando criança. Comilona, meiga e delicada, Magali é uma personagem querida por todos na turma, uma grande amiga e conselheira para a Mônica, uma gracinha. Na versão Jovem, ela controla o apetite para manter a forma. Mas ainda é doce, meiga e completamente apaixonada por gatos.

A revistinha número 1 da Magali tradicional – a criança comilona – chegou às bancas em fevereiro de 1989. Custava Cz$ 360,00. Hoje, está fora de circulação, mas pode ser encontrada em sebos. A primeira aparição do Mingau, o gatinho da Magali, foi nessa revistinha. Ele vivia nas ruas e foi adotado por ela. Abaixo, a capa da revistinha: 

magali ano 1 nr 1 [Curiosidades] Edição Especial da Magali Jovem nas bancas

 

pixel [Curiosidades] Edição Especial da Magali Jovem nas bancas

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