[Papo Cabeça] O que Neil Gaiman pensa sobre a pirataria?
Postado por: PDL / Categoria: Informação e Cultura, Papo CabeçaO vídeo abaixo não é novo. Ele é parte de uma entrevista dada por Neil Gaiman na Flip de 2008, mas assim como eu não o conhecia, acredito que muita gente também estará vendo pela primeira vez.
Ao ser perguntado sobre sua opinião quanto a seus livros estarem disponíveis de graça na internet, Gaiman disse que isso não o incomoda. Pelo contrário, ele teria medo se as pessoas não pudessem lê-los de forma alguma. “O inimigo não é a idéia de que as pessoas estão lendo livros de graça. Ou lendo na internet de graça. Da minha perspectiva o inimigo é as pessoas não lerem.”
Confesso que ao assistir fiquei surpreso e contente por um escritor de tamanha envergadura apresentar uma opinião tão coerente e sensata. Então o autor do Sandman seria um socialista despreendido? Claro que não. Segundo ele, ninguém conhece um novo autor indo a uma livraria e comprando um livro desconhecido. As pessoas conhecem seus autores primeiro lendo de graça, por indicação de um amigo, pegando na biblioteca, etc. Depois, elas certamente desejarão adquirir o livro impresso.
Certo barões da indústria acreditam que cada download é um exemplar que deixa de ser vendido. Quanta miopia. Estão há décadas no mercado e ainda não nos conhecem. Não sabem que para nós um livro é mais que um amontoado de letras que pode ser digitalizado e lido sem pagar nada. Não sabem que nossos livros têm valor sentimental e simbólico. Que cada exemplar que conseguimos comprar é como se materializassemos um pedacinho de nós mesmos para colocar na estante. Será que alguém convida os amigos para, orgulhosamente, exibir seus últimos livros baixados da internet? Ou sonha com o momento de ler sua coleção de livros piratas para seus filhos? Ou, ainda, presenteia uma pessoa querida com um livro em PDF e com uma dedicatória escrita no corpo de texto do e-mail?
Assim como Neil Gaiman, penso que se suas condições econômicas permitirem, as pessoas comprarão os livros que amam. E se elas não gostarem, não vão comprar. Afinal, porque não podemos cuspir parte do que sempre nos empurraram goela abaixo?
Acredito que os livros da internet são capazes de estimular a venda de livros impressos, formar novos leitores e despertar o prazer pela leitura, que é como o prazer do sexo: o virtual até pode quebrar um galho, mas nada substitui o toque, o cheiro, o estar perto. E nada substitui a sensação de possuir.
Texto Por Marcus Vinícius em Cultura Digital
Transcrição da resposta:
Isso realmente não me incomda.
Obviamente eu preferia estar em um mundo em que as pessoas pudessem ter sua dose dos meus quadrinhos por meios mais legítimos e que isso de vez em quando pagasse o meu jantar.
Dado que não há canais legítimos lá fora, acho que seria muito ingênuo da minha parte me opor.
(…)
Ontem no almoço, Zoe Heller, grande autora e muito inteligente, veio até mim e disse: “Alguém me deu esse livro e são uma pessoas que acham que os livros devem circular e quando você termina de ler deve dá-los a alguém. E não sei o que pensar disso, porque de certa forma eu sobrevivo das pessoas comprarem novos livros.”
E eu disse: Zoe, nenhum de nós descobriu seus escritores favoritos comprando seus livros. Não é como isso acontece. Vocês aqui. Você provavelmente tem um escritor favorito. E a resposta é que vocês descobriram seu escritor favorito quando alguém disse: “Tome, eu acabei de ler esse livro, é bom e você vai gostar”. Ou você pegou o livro da prateleira de alguém e disse: “Isso parece interessante. Posso pegar emprestado?” Ou você encontrou na biblioteca. Ou alguém esqueceu no trem.
É assim que as pessoas descobrem seus escritores favoritos.
Não o descobrem entrando numa livraria e dizendo: “Vou comprar este livro novo de capa dura!”
Acaba sempre acontecendo que novos autores e autores famosos começam sendo descobertos acidentalmente quando você tropeça neles.
E são como aquela primeira dose de heroína e sem perceber você está descendo a rua para comprar tudo o que aquele cara já escreveu.
E até onde me interessa, qualquer maneira de fazer os livros circularem é legítima. Eu amo o fato das pessoas estarem dando livros que de outra forma ficariam esquecidos em uma prateleira.
E certamente eu não acho que algum desses leitores seja uma venda perdida. Porque da minha perspectiva o inimigo não é a idéia de que as pessoas estão lendo livros de graça. Ou lendo na internet de graça.
Da minha perspectiva o inimigo é as pessoas não lerem.
Qualquer pessoa lendo algo de graça da internet ainda faz parte da minha tribo.
A tribo das pessoas que lêem.
E se eles passarem adiante por fazerem parte dessa tribo eles querem esses livros para si.
Eles vão querer os livros de verdade. Eles vão querer comprar as versões de capa dura. Eles vão querê-los. Porque eu quero. E isso é uma coisa boa.
Tags: copyright, Cultura Digital, Cultura Livre, Neil Gaiman, Pirataria










junho 24th, 2010 at 1:47
Concordo completamente. Não sou rico e também não tenho condições de comprar todo livro que eu gostaria de ler,mas com todas minhas dificuldade já tenho algumas livros dos meus autores favoritos (ainda vou ter minha biblioteca particular)
junho 24th, 2010 at 13:30
Realmente foi muito inteligente dele esta percepção de que livros (e aí podemos inluir HQs, música e outros produtos culturais) já eram consumidos de graça, através de outros meios que não o download. Claro que hoje é muito mais fácil o acesso, mas esse primeiro consumo gratuito pode servir como divulgação para uma pessoa que talvez nunca teria comprado mesmo o tal produto.
junho 24th, 2010 at 15:27
Nunca li nenhum livro dele, mas com certeza agora vou procurar conhecê-lo. Um escritor com um ponto de vista tão surpreendente e sensato merece uma atenção maior do que o normal.
Se todos pensassem assim…
junho 24th, 2010 at 21:12
Neil Gaiman é tudo de bom! É um dos autores mais inteligentes e criativos do mundo inteiro na minha opinião. Curioso é que eu baixei um livro dele e só li a primeira história, depois pedi o livro de presente de aniversário – porque eu queria tê-lo pra sempre, como você disse, Marcus, para materializar um pedacinho de mim para colocar na estante. E foi o que fiz. Já tenho dois livro dele e todos dois são maravilhosos. Parabéns pelo post – bem escrito e muito interessante.
junho 25th, 2010 at 16:34
Duas questões com relação ao texto:
Se o autor, Neil Gaiman, é a favor da circulação para leitura dos seus trabalhos pela net, então isso não é pirataria, é pirataria quando o autor não concorda com esse tipo de coisa, certo?
Concordo que tem gente que compra o livro físico para falar, ou registrar que gosta do trabalho do autor e o respeita, contudo podemos dizer que todo mundo tem esse pensamento, ainda mais no “Brazil” onde predomina a “Cultura do Esperto”?
Ps.: Ultimamente não tenho comprado livros, estou usando a wikipedia e a própria net para leitura, agora todos os softwares que uso são legais, respeito o trabalho dos outros.
junho 26th, 2010 at 13:59
não gosto da obra do neil gaiman. mas gostei da opinião dele.
julho 20th, 2010 at 22:51
eu concordo com ele por que eu acho que livros digitais gratis estimulam mais a venda de livros impressos. muitos dos livros que eu baixei nesse blog agora eu estou comprando as versoes impressas deles, por que livros de papel são mais duraveis e dão mais estatus a pessoa que os digitais, e são mais faceis de ler, mai é importante divulgar para as pessoas comprarem por que gostam do livro e não por curiosidade que muitas vezes acaba deixando-o frustado com o livro ou o autor!
agosto 18th, 2010 at 15:26
[...] Transcrição de uma entrevista feita quando o autor veio à Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, de 2008, pinçada pelo blog E-books Grátis. [...]
maio 24th, 2011 at 15:32
tá certo. Eu nunca iria desembolsar R$120 reais e um exemplar de capa dura do sandman se não tivesse baixado antes para ver se prestava. Muito correto o pensamento de nosso titio Gaiman.
junho 22nd, 2011 at 13:53
O mestre disse tudo! Assim como muitos, eu mesmo comecei a ler os ‘scans’ baixado pela internet. Com certeza foi o fantasticamente suficiente para o meu gosto ter as edições de luxo. Isso é bom para o escritor, é como ele mesmo diz:
“E se eles passarem adiante por fazerem parte dessa tribo eles querem esses livros para si. Eles vão querer os livros de verdade. Eles vão querer comprar as versões de capa dura. Eles vão querê-los. Porque eu quero. E isso é uma coisa boa.”
O importante é ler e ampliar nossos conhecimentos. Dizer isso soa como um clichê, certamente, mas é a verdade. Os livros e quadrinhos (e quaisquer outras formas de leitura) ajudam a formar nossas mais variadas opiniões, moldando a nossa mente e nossas ações.
julho 13th, 2011 at 9:33
Adorei a entrevista,não conhecia.Gosto muito do Neil Gaiman e infelizmente não tenho dinheiro para comprar todos os livros lançados dele,mas espero um dia poder comprá-los.
julho 26th, 2011 at 20:13
E a cada dia que passo eu acho esse homem mais genial… Ah, belo texto Marcus.
outubro 7th, 2011 at 18:42
Pra mim ele está totalmente certo, eu sonho em comprar “Guerra Civil Marvel” mas já que não dá eu baixo.
O mais dificil não é compra, porque se você trabalhar um poco dá pra comprar, pelo menos na minha cidade o problema é a indisponibilidade de quadrinhos, a ultima saga da marvel, “O Cerco”, não consegui comprar porque nenhuma banca da cidade tinha, então eu tive que baixar mesmo. Os barões que são contra a pirataria deviam ler isso, ai eles iam ver o quanto são burros.
janeiro 20th, 2012 at 13:57
[...] de imprensa de Neil Gaiman na FLIP 2008, onde ele se pronuncia sobre a pirataria na internet. Visto aqui. Rate this: CompartilheCompartilharEmailPrintFacebookTwitterGostar disso:GostoSeja o primeiro a [...]