[Fragmentos Poéticos] Dos segredos abertos dela

Posted by: PDL  /  Category: Fragmentos Poéticos, Informação e Cultura

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Era despudorada aquela minha vontade. De ouvir os segredos duros da mulher silenciosa. E ela palpitava em silêncio, a alma aos gritos. O rosto era arredondado, os olhos escuros, e tinha os lábios carnudos. Havia quem dissesse que os traços eram grosseiros, outros sequer notavam. A quem desejasse ver, no entanto, aquele rosto era puro gozo de entardecer. Era desejo. Criava filhos. Três ou quatro, não me lembro bem. Abocanhava os detalhes do dia com vigor e o trabalho na casa cheirava ao mais fino dos cuidados. O filho mais novo a queria bem, o mais velho sonhava longe, a do meio cantava ao anoitecer. Talvez houvesse um quarto filho, diagnosticado com algum problema que ninguém além dos médicos compreenderia ao certo. Ela se espremia em silêncios e vontades que mal conhecia: e trabalhava dia e noite ao infinito. A casa, o chão, a feira, a rua, os postes, a lua, a água na calçada. O mundo escada abaixo, as pernas cansadas, os filhos distraídos, o tempo que passava. Um bêbado, um homem, um medo. Aqueles contos de sei lá quando contados pela professora das séries iniciais que havia cursado. Tempos antigos de escola. Era bom saber que ainda sabia ler. Algumas cartas eram importantes. Outras de nada valiam. O vento lhe comia os dentes e os sonhos, mas quase sempre havia um pouco de música. Raramente havia dança. Era mulher silenciosa. Tinha uns poucos estranhos medos que a impediam de enxergar a coragem. Achava que ter levado a vida até ali não era mais do que sua obrigação. Acreditava que a roupa lavada era o destino. Por isso, nem por um segundo, exigia reconhecimento, gratidão ou glória.

Era despudorada minha vontade. De me desepejar no segredos abertos dela: segredos que saberiam cantar sem pudores a assustadora melodia de meus obscuros. De nossas algemas.

por Carla Carrion

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Um comentário to “[Fragmentos Poéticos] Dos segredos abertos dela”

  1. Iane Mello Says:

    Belíssimo conto; sensível e tocante.
    Linguagem pungente, forte e lírica.
    Parabéns, Carla!
    Aliás, já me tornei seguidora de seu blog.

    Um abraço.

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