[Fragmentos Poéticos] Amantes
Postado por: PDL / Categoria: Fragmentos Poéticos, Informação e CulturaTocaram-se as mãos de leve. Era escuro e eles olhavam as estrelas. Eram ásperos como se não conhecessem ternura. Olhavam as estrelas porque nada mais tinham para fazer e, de leve, tocavam as mãos porque fazia frio e porque sentiam um na pele do outro aquela vontade escondida exacerbada que em breve se faria viva. Viveram. Quase sem notar: um pouco porque tremiam, um pouco porque a vontade exigia. Foi num instante único, sob as estrelas, sérios e raivosos: um sussurrando nomes desconhecidos, outro calado ofegante fingindo não ouvir. Eram toques-rugidos, vibrantes, cariciosos. As mentes em outros mundos sonhando talvez outros sonhos. Um fio de prazer correndo ali, tão sem vida que os deixava ainda mais excitados pelo sofrimento indolor de vivenciar um instante que logo morreria. Eram lindos e se deitaram pesados enquanto as estrelas ainda estavam. Eram belos como tudo aquilo que não se vê: deslizavam silenciosos como os pecados que as famílias insistiam em varrer para os bueiros e valas. Eram: em meio a bueiros, sonhos e vontades perdidas. A língua desconhecida da madrugada. O urbano em sua mais humana forma, o inaudível, o impossível.
Olharam as estrelas porque nada mais tinham para fazer. Murmuraram-se baixinho: “estamos ocos”, e então um milésimo de segundo de amor viveu ali. Oco. Ocos, preencheram-se suaves e buscaram se fazer inteiros até a noite passar. E, porque tudo demora muito quando se está acordado, esqueceram as estrelas e se entreolharam. Fitando-se em silêncio, sabiam que partiriam, cada qual para um lado – para lados desconhecidos. E que era impossível seguirem-se. Tocaram-se as mãos de leve, porque fazia frio novamente. Mexeram-se num certo incômodo, porque já não eram amantes: eram irmãos. E, como era impossivelmente assustador compreender a força disso, decidiram apressar a manhã e a despedida, antes que o amor os tomasse por completo e que, incestuosos, inventassem de sair de mãos dadas, não mais por causa do frio. “Estamos ocos”, murmuravam-se repetidamente, enquanto se afastavam lentamente, deixando um no outro um pedacinho de que?
Despediram-se como se nunca mais fossem voltar…
por @Carla Jaia
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abril 16th, 2010 at 17:06
Gostei; coisas do gênero geralmente sai ou uma verborragia nonsense ou uma superficialidade amadorista. Este ficou legal.
Abraço.
abril 23rd, 2010 at 4:15
Olá,
Estou passando para avisar que o Sindicato está de volta, mas com tantas novidades que é melhor passar lá para conferir. Primeiro que agora somos um portal de blogs (http://uniaodeblogs.org). Seria ótimo tê-lo como nosso associados.
Nossa ambição é alavancar as visitas de todos os associados. Temos fóruns, agregadores, comunidades de parceiros e associados, envio de artigos e muito mais. Espero você lá…
abril 23rd, 2010 at 8:31
olá, (vou fazer um comentário de um outro post)
cara cadê a revistinha da TMJ 20?
vocês desistiram do projeto?
ou estão sem tempo?
Estamos no aguardo (eu e as 45 pessoas dos comentários da TMJ)
abraços
dezembro 18th, 2011 at 0:29
são sempre bonitas historias, belas e cruéis.