[Papo Cabeça] Livros gratuitos na internet exigem revisão das leis de direitos autorais no mundo

Categoria: Informação e Cultura, Papo Cabeça

topogooglebooks [Papo Cabeça] Livros gratuitos na internet exigem revisão das leis de direitos autorais no mundo

Verónica Calderón, do El País

A primeira página indica que o livro foi impresso em 1865. Trata-se de uma edição de luxo de “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha”. É pouco provável que seus editores imaginassem que, quase 150 anos depois, qualquer leitor, em qualquer parte do mundo, poderia ter uma cópia dele. Basta ter acesso ao portal Google Livros (http://books.google.com.br), salvá-lo no computador e imprimir suas 566 páginas. O documento eletrônico não economiza em detalhes. Inclui as capas, as 30 gravuras que ilustram a obra, o brasão da edição original de 1605 e até o selo da Biblioteca da Universidade Complutense de Madri, lugar onde permaneceu durante todos esses anos e a primeira biblioteca não anglo-saxã que a fechar um acordo com o Google para digitalizar seu acervo.

A obra é uma dentre milhões que estão disponíveis no portal. Sua antiguidade a transforma em domínio público, isto é, não exige o pagamento de direitos autorais. E ilustra “a grande ideia” de Sergey Brin e Larry Page, cofundadores do Google: “que as pessoas de todo o mundo possam buscar qualquer livro entre todos os livros do mundo”. O site de buscas indica, em uma entrada do blog do Google Books, que Brin e Page “nunca teriam imaginado que um dia iniciariam um projeto que possibilitasse isso”. O entusiasmo de seus criadores os levou a comparar o projeto à antiga biblioteca de Alexandria ou a biblioteca de Babel sonhada pelo escritor Jorge Luis Borges. Mas a polêmica causada pela ideia é menos romântica.

Não são livros como “Dom Quixote” que concentram o problema. O centro da polêmica se resume em uma palavra: “copyright”. As bibliotecas não são as únicas proprietárias dos títulos, e os direitos sobre as obras que não são de domínio público e estão protegidas por leis de direitos autorais – diferentes em cada país do mundo – se transformaram no centro da polêmica. A coleção que o Google compilou entre as 20 bibliotecas que aderiram ao projeto até o momento (duas delas espanholas: além da Complutense, está disponível o catálogo da Biblioteca da Catalunha) inclui um amplo número de edições publicadas antes de 1923. “Estamos literalmente abrindo nossa biblioteca para o mundo. As oportunidades educacionais são excelentes e estamos encantados em colaborar com o Google neste projeto”, aponta o reitor da universidade madrilenha, Carlos Berzosa, no blog do Google Books.

Os livros publicados depois dessa data estão disponíveis para o usuário, mas não é possível ver o livro inteiro. Por exemplo, uma busca sobre “O Grande Gatsby” só trará cópias com “visão restrita”: isto é, o leitor verá apenas algumas páginas e não poderá dispor de uma cópia completa. Nesses casos, o Google recomenda diversas livrarias online para se obter um exemplar da obra de F. Scott Fitzgerald. Foi exatamente no caso desse tipo de livros que as associações de editores e autores dos EUA iniciaram o protesto. Um acordo de € 90 milhões, fechado em outubro de 2008, pôs fim a uma disputa aberta em um tribunal americano contra o gigante da web. Se o Google oferece acesso livre aos usuários e os editores e autores obtêm ganhos, qual é o problema?

Além dos livros de domínio público e dos protegidos pelas leis de direitos autorais, existem os chamados “livros obscuros”, como os define o jornalista e escritor Farhad Manjoo. “Digamos que você faz uma pesquisa e navega pelo Google Box, encontra no catálogo da Universidade de Michigan um livro sobre um autor do qual nunca ouviu falar, publicado por uma editora que não existe mais, mas que é o mais adequado ao que você estava procurando. O livro é protegido por direitos autorais, mas não está disponível nas bibliotecas. O Google Books seria a única janela para obtê-lo.”

E onde iriam parar esses ganhos? O Google previu a criação de um registro de livros (Book Right Registry em inglês), que funcionará como uma organização sem fins lucrativos e que distribuirá 63% dos ganhos entre os autores e editores dos livros de edição esgotada. A maneira como se distribuirá o dinheiro, entretanto, ainda não foi detalhada. Além disso, se os autores desconhecerem que suas obras estão disponíveis na rede ou não desejarem se inscrever no registro, automaticamente estarão fora de qualquer ganho. O acordo também não prevê o caso de autores que desejem que suas obras sejam gratuitas. Os críticos, além disso, apontam que a empresa obteria o controle da indústria dos conteúdos digitalizados. O Google alega que seu objetivo é tornar mais acessível a informação para o usuário; de forma que se um internauta desejar encontrar uma frase em qualquer livro do mundo possa fazê-lo em poucos segundos. “Se o conteúdo inteiro de qualquer site está disponível através de seus mecanismos de busca – sem pagar um centavo pelo uso dessa informação -, por que não fazer o mesmo com os livros?”, explica Manjoo.

Luis Collado, responsável pela máquina de buscas de livros do Google na Espanha e em Portugal, explica que a capacidade do mecanismo de busca oferece uma oportunidade “inédita” ao usuário para explorar os livros. “O leitor pode encontrar uma frase entre centenas de páginas. É uma potência de busca nunca vista”, afirma.

Eric Schmidt, cofundador do Google, se defende com o argumento de que o grande beneficiário é o autor. Em uma coluna publicada em 2005 no “Wall Street Journal”, ele relata que, no dia em que Joseph Ratzinger se transformou no papa Bento 16, “milhões de pessoas que procuraram seu nome” descobriram que no Google Books estava disponível seu livro “In the Beginning” [No Princípio]. “Milhares deles folhearam uma ou duas páginas do livro e muitos clicaram para comprá-lo. Quantos autores de livros com edições esgotadas serão beneficiados?” O projeto inclui até o momento cerca de 10 milhões de obras, afirma Collado.

Mas algumas pessoas duvidam da boa-fé do projeto. O governo alemão acredita que o acordo feito nos EUA não é suficiente para seus escritores e editores. “Na Europa só foram digitalizados livros que estão em domínio público de acordo com a legislação”, explica Collado, acrescentando que a intenção da empresa é “fomentar o debate” para chegar a uma solução.

É verdade que o debate remonta aos primeiros tempos da Internet. O site www.mp3.com transformou dezenas de milhares de músicas em formato digital sem pedir permissão a ninguém. Sua meta inicial era que só os que pudessem provar que tinham comprado o disco poderiam baixá-las. A revolução causada na indústria musical poderá servir de precedente para as editoras e os escritores.

O escritor Mauricio Montiel explica que a ferramenta lhe causa “emoções contraditórias”. “Apoia a divulgação, pois nem todos os escritores somos Dan Brown. Torna mais acessível nosso trabalho para os leitores; mas há necessidade de um acordo para que os escritores obtenham um benefício por seu trabalho”, comenta.

Os ganhos são exatamente o miolo do assunto. Não está claro nem como serão distribuídos, nem entre quem. O fato é que o Google, em seu afã para administrar o conhecimento do mundo, se transformou no centro de pelejas semelhantes diante dos meios de comunicação, como no uso que o Google Notícias fazia da informação, que originou diversos processos da Associated Press e France Presse; ou com os conteúdos audiovisuais – o portal YouTube alcançou acordos com redes de televisão americanas para divulgar seus conteúdos – e inclusive com as ruas das cidades. A “street view” do Google Mapas levantou mais de uma sobrancelha ao redor do mundo, pois alguns críticos apontam que invade a privacidade dos cidadãos.

“A internet segundo o Google é democracia para alguns e anarquia para outros. O usuário pode dispor da informação que desejar de forma gratuita e os criadores de conteúdo estão desorientados, como galinhas que acabam de ser decapitadas”, descreve o jornalista.

Mas o objetivo do Google, afirma Manjoo, guarda uma boa recompensa para o leitor. “Qualquer pessoa que queira fazer uma pesquisa agradecerá que o conteúdo das bibliotecas esteja disponível. Seu mecanismo de busca permite revisar centenas de páginas em um segundo e a navegação é fácil e simples”, comenta. “Quando fiz uma pesquisa utilizei tanto o Google Books como o Google Scholar [uma ferramenta de busca de textos acadêmicos], e teria pago com gosto pela ajuda oferecida”, explica.

Mas não há só boas notícias para o usuário. A ONG americana Electronic Frontier Foundation reconhece que a criação da biblioteca virtual do Google “aumentará drasticamente o acesso público aos livros”, mas adverte que a empresa não garante a privacidade do leitor. “No mundo analógico, um leitor conta com toda a privacidade para escolher os livros que desejar. No campo digital, porém, o Google dispõe de sistemas que monitoram os livros digitais que um usuário procura, as páginas que ele lê, o tempo que passa lendo e até as linhas que decidiu selecionar”, afirma a organização em um comunicado. Collado responde que a principal preocupação do Google é o usuário. “Temos uma política de privacidade muito clara: a informação de cada usuário não pode sair do ambiente do Google”, e acrescenta que só será utilizada para “melhorar a experiência de utilização da ferramenta”.

Em todo caso, não há um argumento firme que contradiga a meta final do projeto do Google Books. “O Google tem muito dinheiro, funcionários inteligentes e aliados. Mas sua maior força é a convicção de que está do lado da história. A empresa crê firmemente que sua ideologia de abertura é a correta”, explica o escritor e professor Tim Wu, da Universidade Columbia. A informação nos tempos da rede busca (e geralmente encontra) um caminho. E o Google é o mais disposto e, ao que parece, o mais capacitado a oferecê-lo.

[Papo Cabeça] O Futuro (e o fim?) do Livro

Categoria: Informação e Cultura, Papo Cabeça

Reportagem extraída da Revista Superinteressante de Setembro/2009.

superinteressantepdltop [Papo Cabeça] O Futuro (e o fim?) do Livro

Ele tomou um banho de tecnologia e ganhou superpoderes. Ficou ágil, coletivo e revolucionário. Sua velha versão ainda resiste – mas por quanto tempo?

Todos os meses cerca de 20 pessoas comparecem a um encontro marcado em um prédio na região de Pinheiros, em São Pauio. É um grupo heterogêneo. Ali tem advogado, empresário, executivo, consultor. Eles se reúnem porque possuem algo em comum – sabem que o futuro de todos ali está ameaçado. Pra que você entenda o que está acontecendo, vamos às explicações. O prédio de Pinheiros é a sede da Câmara Brasileira do Livro. O pessoal que se reúne lá é formado, na maioria, por representantes de editoras e distribuidoras de livros. E o que os preocupa é um concorrente que vem desafiando o reinado do livro impresso, mantido há 6 séculos, desde a Bíblia de Gutenberg: o livro digital. “A tecnologia está avançando rapidamente. E nós, produtores de livros, ainda estamos presos ao papel”. diz Henrique Farinha, coordenador do grupo e diretor da Editora Gente.

O comandante desse ataque à literatura de papel tem um nome: Kindle. É o leitor eletrônico de livros lançado pela loja virtual americana Amazon. uma tela digital capaz de reproduzir as páginas de qualquer livro, ainda que com algumas limitações. Tem enormes vantagens na disputa com o papel. Digamos que você está lendo esta SUPER enquanto descansa numa paradisíaca praia do Nordeste. Você se interessou pela entrevista com Dan Ariely, na página 34, e resolveu comprar o livro Previsivelmente Irracional de autoria dele. Basta tirar o Kindle da mochila, navegar com ele pelo site da Amazon e fazer a compra na hora. Em coisa de um minuto, você terá o livro inteiro disponível no aparelho. Não é feitiçaria. é tecnologia – uma função wireless parecida com a de alguns celulares. O pagamento seria feito com o cartão de crédito. O preço: USS 9.99. uns RS 19 reais. Bem mais barato que o livro impresso. que custaria o equivalente a RS 31 na mesma loja. Sem contar que daria para ler ali, com o pé pra cima, qualquer outro livro que você já tivesse comprado pelo Kindle. O bichinho armazena mais de 1 500 obras. É o mesmo que carregar por aí uma biblioteca formada durante toda a vida.

A praticidade é a sacada revolucionária que fez do Kindle um hit entre os americanos, por enquanto os únicos a aproveitar suas funcionalidades (a rede wireless usada para venda dos livros ainda não funciona em outros países). Segundo a Amazon. um livro que tenha uma versão digital para o Kindle vende 35% mais cópias. De cada 4 exemplares vendidos de uma obra. um já é digital. Tem até gente pedindo autógrafo pra escritor no e-reader. (Aconteceu de verdade em Nova York, com o humorista David Sedaris. no lançamento de seu livro Engolido pelas Labaredas, no ano passado.) E olha que o Kindle ainda vive a sua infância. A tela já mostra texto e imagens, mas em branco e preto. Cores? Só daqui a alguns anos, segundo JeffBezos, o presidente da Amazon.

Conclusão 1: para os nossos amigos lá na Câmara Brasileira do Livro: o livro digital já pegou. Conclusão 2: se ficar ainda melhor, vai nocautear o livro impresso. Para piorar, uma legião de soldados vem na retaguarda do Kindle. tão ansiosa para vencer a batalha quanto seu líder. Os outros e-readers no mercado estão se sofisticando. Caso do Reader Digital Book. da Sony. Lançado em 2006, ele acabou de ganhar uma turbinada. Em março, a Sony dispo¬nibilizou para os donos de seu e-reader mais de 1 milhão de livros clássicos – de graça. Comor Uma parceria com o Google, que vem digitalizando obras por meio de acordos com editoras. Aliás, são textos que estão dispo níveis para a leitura também na internet. Basta entrar no Google Books – há outros 6 milhões de livros lá.

Sem contar que dá para ler um livro até pelo celular. Por enquanto, a coisa funciona graças ao Kindle – você baixa um aplicativo da Amazon pelo iPhone e manda ver na leitura. Mas já tem gente apostando que a Apple vem aí com uma idéia jobsiana para transformar o iPhone em um e-reader sofisticado. No Brasil, nada disso vale ainda. O primeiro a chegar deve ser criação tupiniquim mesmo: o Braview, previsto para outubro

superinteressantepdlmei [Papo Cabeça] O Futuro (e o fim?) do Livro

E eu com isso?

Beleza, o livro digital é mais prático e barato do que o impresso. E daír Daí que a transição vai mexer diretamente com a sua vida. Veja este caso: na cidade inglesa de Hacknev, a escola City Academy vai adotar e-books em formato PDF para ensinar seus alunos, uma criançada de 11 a 16 anos. Nada mais de livros convencionais. Para viabilizar a digitalização, a escola está trabalhando com editoras de livros que compõem o currículo escolar. Chega de ver criancinhas com mochilas de 3, 4, 5 quilos nas costas. No caso do Kindle, tudo caberia em menos de 300 gramas. O mesmo que você teria de carregar se saísse de férias e levasse 5 livros pra ler na viagem.

A dor na coluna vai diminuir. Mas a dor no bolso pode aumentar. É verdade, os e-books custam menos do que o livro impresso. O problema é que um modelo como o Kindle permite que você tenha um livro no momento em que quiser – nem sobra tempo para pensar duas vezes. É a oportunidade perfeita para as compras por impulso. E quem é mão de vaca não vai ter moleza pra pegar livro dos outros. Hoje, não dá para emprestar as obras digitais para os parentes ou amigos. A exceção é o Cool-er. da fabricante britânica ínteread. que deixa você repassar um arquivo para até 4 pessoas.

O livro digital também pode transformar a leitura em um ato coletivo. Não. não é que você vai reunir a galera pra contar historinha. É só a influência da web 2.0. Sabe aquelas anotações que a gente faz no canto da página? Com o livro em bibliotecas como a do Google, vai dar para ler seu conteúdo e deixar anotações para o próximo leitor. Teríamos acesso aos pensamentos e referências que outra pessoa, que nem conhecemos, deixou ali.

Bacana, não é? Mas as mudanças podem não ser tão positivas para o pessoal da indústria do livro, como aquele grupo do começo da reportagem. Pense aqui com a gente: se não vamos precisar de papel, tinta e distribuição pra fazer e vender livros…pra que servirão as editoras e distribuidoras? Aí é que o bicho pega. Autores best sellers não precisam de tanta orientação ou promoção pra vender livros. Poderiam cortar os intermediários e negociar direto com as lojas. Isso aumentaria a participação nos lucros. O movimento já começou: a Interead, aquela do Cool-er, ofereceu 50% do dinheiro das vendas para os escritores que coloquem seus livros à venda no site do e-reader, o Coolerbooks.com. Uma editora tradicional costuma pagar até 10%. Mas e os autores menos famosos? Eles ainda precisam das editoras. E a morte delas pode ser a morte de grande parte da boa literatura. Ou não: talvez qualquer um possa escrever um livro e colocar na internet. São questões ainda sem resposta.

De qualquer jeito, o modelo tradicional não vai desaparecer da noite para o dia – as vendas de livros eletrônicos não passam de 2″ o do mercado livreiro, e isso nos países em que o e-reader já é realidade. Mesmo assim, editoras e lojas estão se mexendo, seja digitalizando o catálogo, seja criando negócios no mundo virtual. Elas têm, no entanto, uma dor de cabeça maior pela frente. No empenho para consolidar seu leitor eletrônico, a Amazon cravou um preço para a venda da maioria de seus livros.- USS 9.99 – enquanto um título em capa dura custa em média entre US$ 25 e USS 35. Só que a própria Amazon paga entre USS 12 e USS 13 pra comprar obras das editoras. Ou seja, tem prejuízo. É uma aposta para o futuro: o preço baixo ajuda a atrair clientes a rodo. isso pode pressionar as editoras a baixar os preços para competir, sacrificando os lucros. E talvez as levando à falência. Só a Amazon se daria bem. porque teria a clientela formada e conseguiria colocar o negócio no azul.

Até as bibliotecas terão de aprender a viver nessa nova ordem. No exterior, os bibliotecários estão se especializando em pesquisas online. Querem ser profissionais preparados para ajudar estudantes e interessados a filtrar informações encontradas em sites. “Tem muito lixo na internet. As pessoas assumem como verdade qualquer informação achada na Wikipedia”, diz Nêmora Rodrigues, presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia. “O bibliotecário precisará indicar o caminho para as fontes mais relevantes e fidedignas.”

Pois é, o livro eletrônico chegou botando banca. Mas o fato é que ele ainda não chegou de verdade. Há muito a ser aprimorado até que os aparelhos e bibliotecas online caiam nos braços do povo. “O livro impresso terá seu espaço até aparecer um leitor eletrônico que seja acessível, agradável de usar e tenha um formato atraente. A questão é quando vai surgir”. diz Henrique Farinha. De qualquer forma, o ringue está pronto. E o livro impresso, com suas capas coloridas, o cheiro de tinta e uma experiência de tato ainda inigualável, terá de barrar o ímpeto de seu oponente – mais jovem e cheio de novidades. Antes que o novato vire um produto a que nem o leitor mais conservador consiga resistir.

Os Rivais

Conheça os grandes concorrentes do livro impresso – eles poderão engolir a sua biblioteca em breve

KINDLE/AMAZON

PREÇO: Duas versões. Uma por US$ 299 e outra, maior, por U5$ 489.
PONTOS FORTES: Nos EUA, dá para comprar mais de 275 mil livros em qualquer hora e lugar, pelo próprio e-reader.
PONTOS FRACOS: A Amazon tem controle sobre sua coleção. Pode deletar qualquer Livro, como fez em julho com 1984, por uma questão de direitos autorais- E não está disponível no Brasil

READER DIGITAL BOOK/SONY

PREÇO: Duas versões. Uma por US$ 279 e outra, pocket, por US$ 199.
PONTOS FORTES: Acesso gratuito a mais de 1 milhão de Livros do acervo do Google. E é mais barato do que o Kindle.
PONTOS FRACOS
: O downLoad para o e-reader não é automático. É preciso conectar o aparelho ao computador para baixar os livros. Não está disponível no Brasil.

BR-100-NTX/ BRAVIEW

PREÇO: O equivalente a US$ 200.
PONTOS FORTES: É coisa nossa! Previsto para ser lançado por aqui em outubro, deve ser o único no país por um tempo.
PONTOS FRACOS: Será mais simples que seus amigos estrangeiros, sem wi-fi ou tela sensível ao toque. Ainda não divulgou quais e quantas serão as obras disponíveis para Leitura no e-reader.

Baixe a reportagem original clicando aqui

[Notícias] Leia trecho de “Free” que fala a economia do gratuito no Brasil

Categoria: Informação e Cultura, Notícias, Papo Cabeça

O texto abaixo é um trecho do livro “Free”, de Chris Anderson, recém lançado no Brasil. Foi públicado pela revista InfoExame deste mês e digitalizado pela equipe do blog. Nele, o autor destaca o Brasil com um dos países pioneiros na exploração da economia do gratuito em diversas áreas, como a da música, software e medicamentos. Vale a pena ler!

chrisandersonlateralpdl [Notícias] Leia trecho de Free que fala a economia do gratuito no BrasilO PODER DOS CAMELÔS BRASILEIROS

Em uma agitada esquina em São Paulo, Brasil, camelôs vendem os últimos lançamentos do “tecnobrega”, incluindo uma banda de sucesso chamada Banda Calypso. A música “brega”, originada no Pará, um estado pobre do Norte do país, é um som de festa turbulento, que mistura música tradicional brasileira com batida tecno. Como os CDs vendidos pela maioria dos camelôs, não se trata de produtos oficiais de uma grande gravadora. Mas também não são ilícitos.

Os CDs são criados por estúdios de gravação locais, que tendem a ser de propriedade de DJs locais. Eles, por sua vez, obtêm os originais da própria banda, além da arte da capa. Os DJs locais trabalham com promotores de festas, camelôs e estações de rádio locais para promover os shows. Algumas vezes, os DJs locais atuam em todas essas áreas, produzindo, vendendo e promovendo os CDs para os shows que eles mesmos organizam.

A Banda Calypso não se importa de deixar de ganhar dinheiro com isso, porque a venda de discos não é sua principal fonte de renda. Na verdade, a banda está no negócio de shows — e é um bom negócio. Viajando de uma cidade à outra, sempre precedida por uma onda de CDs superbaratos, a Banda Calypso é capaz de lotar centenas de shows por ano. Em geral, a banda se apresenta duas ou três vezes a cada final de semana, viajando pelo país de micro-ônibus ou barco.

Mas as viagens não são só por estradas ou rios. Hermano Vianna, antropólogo e estudioso da música brasileira, conta uma história sobre a Banda Calypso para ilustrar seu sucesso. Enquanto planejava um perfil da banda para um programa da TV Globo, Vianna ofereceu um avião da Globo para transportar a banda para um show em uma região remota do país. A resposta da Banda Calypso: não precisa, nós temos nosso próprio avião.

Em certo sentido, os camelôs se tornaram a equipe de reconhecimento em cada cidade que a Banda Calypso visita. Eles podem ganhar dinheiro com os CDs de música, que chegam a vender por apenas U$0,75 e, por sua vez, dão grande visibilidade aos CDs. Ninguém pensa nos CDs baratos dos camelôs como pirataria. É só marketing, usando a economia das ruas para gerar credibilidade e destaque. Como resultado, quando a Banda Calypso chega à cidade, todo mundo já conhece suas músicas. A banda recebe enormes multidões em seus eventos, nos quais cobra não somente pela entrada, mas também pela comida e a bebida. O pessoal da banda também grava o show e queima CDs e DVDs no local, vendendo-os por cerca de US$2, de modo que os espectadores podem assistir ao show que acabaram de ver.

Mais de 10 milhões de CDs da Banda Calypso foram vendidos, em sua maioria não pela própria banda. E eles não estão sozinhos. Agora, a indústria do tecnobrega inclui centenas de bandas e milhares de shows por ano. Um estudo realizado por Ronaldo Lemos e seus colegas do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro revelou que, entre os shows e a música, essa indústria gera Cerca de 90% das bandas não têm contrato de gravação nem gravadora. Elas não precisam disso. Deixar que os outros tenham acesso gratuito à música gera uma indústria maior do que a cobrança pela música jamais conseguiria. Isso é algo que o Brasil sabe melhor do que a maioria: seu ministro da cultura até 2008, a celebridade da música pop Gilberto Gil, lançou sua música sob uma licença gratuita da Creative Commons (inclusive em um CD que distribuímos de graça com a Wired).

Como ocorre na China, a atração do Grátis no Brasil se estende além da música. Em 1996, em resposta ao alarmante índice de casos de Aids no Brasil, o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso garantiu a distribuição de novos coquetéis de medicamentos a todos os portadores de HIV no país. Cinco anos mais tarde, com o número de casos de Aids caindo, ficou claro que o plano era bom, mas — aos preços sendo cobrados pelos medicamentos patenteados contidos no coquetel — absolutamente insustentável.

Então, o ministro da saúde do Brasil procurou os principais detentores das patentes, a gigante farmacêutica americana Merck e a empresa suíça Roche, e pediu desconto porvolume. Quando as empresas negaram, o ministro aumentou a aposta. De acordo com a lei brasileira — ele informou às empresas —, era dele o poder, em caso de emergência nacional, de licenciar laboratórios locais para produzir medicamentos patenteados, sem a necessidade de pagar pelos direitos, e ele exerceria esse direito, caso fosse necessário. As empresas cederam e os preços caíram mais de 50%. Hoje em dia, o Brasil tem uma das maiores indústrias de medicamentos genéricos do mundo. Não grátis, mas livres de direitos autorais, uma abordagem aos direitos de propriedade intelectual que a indústria compartilha com os DJs do tecnobrega.

E o Brasil também é líder global do software livre. 0 país construiu a primeira rede de caixas eletrônicos do mundo baseada no Linux. A principal diretriz do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação é promover a adoção do software livre em todo o governo e, no final, por toda a nação. Ministérios e escolas estão migrando para sistemas de código aberto. E, nos programas de “inclusão digital” do governo -voltados a levar acesso a computadores aos 80% dos brasileiros que ainda não têm sequer um aparelho —, o Linux é a regra.
“Cada licença para o Office mais o Windows no Brasil — um país no qual 22 milhões de pessoas estão morrendo de fome — significa que teremos de exportar 60 sacas de soja”, Marcelo D’Elia Branco, coordenador do Projeto Software Livre do país, disse ao escritor Julian Dibbell. Desse ponto de vista, o software livre não é bom apenas para os consumidores; é bom para a nação.

[Notícias] Direito autoral e novas formas de editoração

Categoria: Informação e Cultura, Notícias, Papo Cabeça

thumbs flash [Notícias] Direito autoral e novas formas de editoração

Em mais uma tarde de debates na Livraria Cultura, dentro da programação do 7º Festival Recifense de Literatura – A Letra e A Voz, o Seminário O Livro Desmaterializado levantou duas importantes discussões para a cadeia produtiva do livro: Autoria Coletiva e Direito Autoral e A Criação e a Distribuição do Novo Produto.

Por volta das 16h, a mesa de debate mediada pelo jornalista André Dib, aprofundou o tema Autoria Coletiva e Direito Autoral, tendo como convidados o advogado especialista em direito autoral, Caio Mariano (SP) e a escritora e poeta Cida Pedrosa. No foco da discussão, a questão da legislação que protege o autor no universo das novas tecnologias.  “Um dos principais desafios são as restrições históricas do direito autoral, que não conseguiu acompanhar a demanda da internet. Há vários títulos fora do catálogo por não atenderem aos interesses editoriais que deveriam estar disponíveis em formato digital, mas que não estão disponibilizados por conta dessas barreiras”, explicou Caio Mariano.

Em sua explanação, Caio fez um breve histórico sobre a história da escrita e da evolução dos suportes, contextualizando com a evolução das leis de direito autoral. Os detalhes e entraves jurídicos foram abordados pelo advogado, que elucidou as garantias e obrigações que regem toda obra criativa. Apesar de se mostrar favorável à flexibilização do direito autoral para garantir o acesso às obras, o advogado apontou as dificuldades que põem ser encontradas por conta da lei vigente. Segundo ele, a lei que rege o direito autoral foi criada mais para proteger os editores do que os autores.

Por sua vez, Cida Pedrosa, que é responsável pelo site colaborativo Interpoética, defendeu o livre acesso da arte. Ela lembrou de experiências exitosas de colaboração na arte e no conhecimento como o creative commons e a Wikipédia. “Acho que cultura e arte é direito de todos. A internet possibilita que algo restrito para alguns passe a ser acessado por todos”, afirmou. Durante o debate, a platéia interagiu bastante, principalmente tirando dúvidas sobre a legislação com Caio Mariano.

thumbs topo int [Notícias] Direito autoral e novas formas de editoração

Editoras e publicações alternativas

Um interessante encontro foi promovido pelo seminário, a partir das 15h, na mesa intitulada Criação e a Distribuição do Novo Produto. Frente a frente estavam a representante da editora Cosac Naify (SP), Elaine Ramos, e o editor publicação independente Livrinho de Papel Finíssimo, Diogo Todé. Em comum, o desafio de realizar um produto atraente para os leitores, com ou sem recursos.

“A partir do momento que o livro está colocado em xeque, a materialidade dele passa a ser seu grande diferencial”, comentou Elaine, fazendo uma provocação ao título do seminário. Para exemplificar esse ponto de vista, apresentou algumas publicações da editora, que mais parecem objetos de luxo. Os livros dialogam com o conteúdo, tanto na diagramação, quanto na textura e possibilidades editoriais. Já Diogo Todé, apresentou o trabalho de sua editora independente, que reúne a colaboração de artistas locais em diversas publicações que se aproximam do formato do zine. Diogo, aliás, ministrou durante o festival a oficina Zine.

[Entrevista] O jornalismo e a economia do gratuito: entrevista com Chris Anderson

Categoria: Informação e Cultura, Notícias, Papo Cabeça

entrevista anderson 1 [Entrevista] O jornalismo e a economia do gratuito: entrevista com Chris Anderson

O jornalista inglês Chris Anderson, 49 anos, editor-chefe da revista “Wired”, ficou famoso em 2006 com o livro “The long tail”, no qual explicava a economia digital a partir do estudo de casos como o da Amazon.com, que transformou-se de uma livraria virtual em um grande supermercado de produtos os mais variados, uma espécie de entreposto gigantesco de comercio na internet. Agora, porem, Anderson dá um passo além na análise da economia digital, com uma tese ousada. Ele está lancando o livro “Free” para provar que o futuro dos negócios na internet tem um “preço radical”: a oferta gratuita de produtos e serviços. Anderson acredita que a rede habituou novas gerações de consumidores a terem acesso gratuito a informações e que o Google é a empresa modelo dos novos tempos do capitalismo: oferta de serviços gratuitos para milhões de usuários online e lucros vindos da cobrança de anúncios que aparecem nas buscas feitas por internautas. O livro menciona o Brasil e a China como grandes laboratórios da economia gratuita em mercados emergentes. Nesta entrevista exclusiva, Anderson explica sua visão do presente e do futuro da economia digital.

Não é uma contradição para alguém que fez do trabalho da internet uma profissão defender a idéia de que empresas e profissionais deveriam oferecer serviços e produtos gratuitos para aumentar os lucros?

CHRIS ANDERSON: Sim, é um paradoxo, temos a impressão de que oferecer algo de graça é algo que se opõe ao lucro. Todos fazem a pergunta: quem vai pagar a conta? Mas o Google é um caso exemplar da economia do gratuito e não pesa na conta do seu cartão de crédito… Muitos alegam que o Google perde muito dinheiro com o YouTube, mas ninguém repara que graças ao YouTube o Google tem hoje uma audiência mundial para mensagens de texto e de video. E até quando o público de TV tradicional migrar definitivamente para a internet, o YouTube vai estar pronto para ele. O mercado sonha com o que é gratuito: consumidores livres, num mercado livre, querem produtos e serviços gratuitos.

O seu livro “Free” menciona Brasil e China como as fronteiras da economia gratuita, por causa da força da pirataria e dos camelôs de rua. No caso brasileiro, a Banda Calypso é citada como um modelo de negócios. O senhor considera que os camelôs brasileiros são um modelo de negócios para o futuro do capitalismo?

CHRIS ANDERSON: Bem, a Banda Calypso não é o único modelo existente hoje para a indústria de música, mas é certamente um modelo de negócios muito interessante ara pensar sobre a força do gratuito. Eu fiquei impressionado ao andar por São Paulo e ver que a banda permitia que os camelôs vendessem seus CDs e DVDs a um custo tão baixo que era na prática gratuito… A banda Calypso prefere ganhar dinheiro em shows e o gesto de dar CDs e DVDs ao público ajudou a popularizar o nome da banda e fazer dos shows de música  tecnobrega um gênero comercialmente viável. Portanto, os camelôs brasileiros e a Banda Calypso são um exemplo de como a economia do gratuito está sendo desenvolvida em economias emergentes.

O senhor também menciona o ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, que lançou seu CD pela internet, e o escritor Paulo Coelho, que pirateou seus próprios livros. Mas há enorme diferença entre um artista de palco e um escritor…

CHRIS ANDERSON: O caso de Gilberto Gil mostra que um artista que foi ministro tem uma compreensão muito aguda das transformações que estão ocorrendo agora no mercado. E que o governo brasileiro também está atento, como também revela o programa de medicamentos gratuitos para portadores de HIV, criado por Fernando Henrique Cardoso e levado adiante no governo Lula. O Brasil tornou-se um dos maiores mercados mundiais de mediamentos genericos, o que também revela a força da economia do gratuito.

No caso da indústria farmacêutica, houve intervenção do Estado, mas no caso da indústria cultural as mudanças atuais são regidas apenas pelo mercado. Por isto, vale a pergunta: será que o sucesso editorial de Paulo Coelho pode servir de exemplo para outros escritores? Não se trata exatamente do oposto, de um caso excepcional?

CHRIS ANDERSON: Bem, certamente não. Paulo Coelho tem livros que venderam 100 milhões de exemplares, como “O Alquimista”. Mas o fato de que ele inventou um site chamado “Pirate Coelho” para piratear seus próprios livros e permitir o download gratuito de suas histórias mostra que ele é um autor que soube perceber que a internet não iria nibir e sim impulsionar a venda de seus livros. Coelho enfrentou a editora HarperCollins e causou a polemica que levou à explosão do sucesso editorial de seus livros. Foi uma excelente estratégia de marketing.

E como vão sobreviver autores de livros que não tiverem o sucesso editorial de Paulo Coelho se a internet tornar os livros disponíveis gratuitamente online? Como poderia sobreviver um filósofo, por exemplo?

CHRIS ANDERSON: Bem, existem várias espécies de escritores da internet. Os filósofos vão precisar da Academia para sobreviver… Muitos filósofos disponibilizam seus escritos na internet e ganham a vida participando de palestras ou dando aulas… No caso dos jornalistas vai ser um pouco mais complicado…

Qual o futuro do jornalismo? O senhor lê algum jornal diário? O San Francisco Chronicle está numa situação delicada e pode desaparecer…

CHRIS ANDERSON: Eu não iria sentir falta do San Francisco Chronicle… Aliás, eu sequer saberia o que estaria perdendo… Leio notícia pelo twitter. Não preciso procurar as notícias em jornais ou em sites. As notícias chegam até mim e elas não são produzidas apenas por jornalistas. Muita gente que não é jornalista escreve ótimas histórias na internet e as publica gratuitamente pelo twitter…

Mas o senhor considera que notícia, media e jornalismo são coisas do século passado?

CHRIS ANDERSON: Não! Eu tenho de fato problemas com as palavras “notícia”, “media” ou “jornalismo”. Porque acho que se usarmos essas palavras apenas no seu contexto commercial estaremos limitando a nossa compreensão do novo cenário tecnológico em que a informação se produz. Nós precisamos de novas palavras para definir o que está acontecendo hoje. Aquilo que chamamos de “social media”, que se compõe de milhares de blogs, sites, twitters, produz também informação e a entrega de forma gratuita para os usuários da internet…

Mas isto quer dizer que o jornalismo profissional está em vias de extinção? Que as empresas de comunicação vão desaparecer?

CHRIS ANDERSON: As empresas de comunicação e os profissionais de jornalismo deverão repensar seus negócios e suas atividades. O problema é que a “social media” distribui informações na mesma plataforma que é usada pelas empresas de comunicação. Hoje, muitas das informações que eu leio, que eu ouço e que eu vejo em vídeos na internet não são produzidas por empresas comerciais. Então há uma concorrência na produção de conteúdos com a qual os jornalistas e as empresas não contavam. E ambos terão que ajustar-se aos novos tempos.

Por enquanto, a “social media” é apenas um passo na direção certa, no sentido da economia do gratuito… Ainda estamos no começo de uma enorme transformação do modo de produzir e distribuir informações no mundo digital.

Isto significa o desaparecimento da profissão de jornalista  ou da media como negócio?

CHRIS ANDERSON: De jeito nenhum. Isto significa que as empresas terão que repensar seus modelos de negócio para torná-los comercialmente viáveis. E os jornalistas vão ter que oferecer aos leitores algo que os amadores e os diletantes da internet não oferecem… As empresas de comunicação não têm mais o monopólio do acesso à informação e esta é uma grande mudança. Isto vale para jornais, TVs, radios, produtoras de cinema, gravadoras… Vale enfim para toda a indústria de produção cultural.

O senhor acha que os modelos de sites da revista The economist e do jornal Wall Street Journal, que são parcialmente gratuitos e parcialmente pagos, são um caminho para empresas de comunicação?

CHRIS ANDERSON: Ambos têm um modelo que eu chamo de “Freemium”, em que parte do conteúdo é gratuito para atrair leitores e parte é paga, pela assinatura dos leitores e pelos anunciantes. Acho que este tem sido um modelo que funciona atualmente. A revista “Wired” também tem um modelo parecido. Mas acho que cada caso é um caso e o que vale para uma empresa pode não servir para outra…

E quanto à qualidade? A demanda por um jornalismo de qualidade na internet tem aumentado e a media tem hoje uma grande audiência online, sem contar os indices de circulação de jornais, que têm aumentado em países como o Brasil ou estão estáveis, em países como os EUA. O fato é que não existe redução de audiência, o que existe é uma crise do lado dos anunciantes… Andrew Keen alerta que a internet está distribuindo muita informação de má  qualidade e que a troca de profissionais por amadores sacrifica a qualidade da informação, que não tem mais credibilidade…

CHRIS ANDERSON: Não acredito que amadores possam substituir profissionais. Mas acho que temos que repensar o que é qualidade jornalística. Certamente credibilidade é um ingrediente da qualidade da informação, mas o ingrediente mais precioso hoje é a relevância. O quão relevante é a informação que um site, um blog ou um twitter distribui? Os profissionais de jornalismo terão que apresentar seus diferenciais para terem audiência, em qualquer que seja o meio que trabalhe. E esses diferenciais são: a relevância da informação que produzem, o acesso às pessoas, o talento na escrita e o tempo investido na coleta de dados. É evidente que o jornalismo investigativo, aquele que existe grande investimento de tempo e de dinheiro, continua a ser essencial, continua a ter um grande público. As pessoas querem pagar por aquilo que é relevante, pelo que é exclusivo, pelo que elas amam, pelo que dá status e pelo que economiza tempo. Isto não mudou.

Neste modelo da economia gratuita, existe lugar para o cinema? Como vão sobreviver atores, escritores, diretores? Só o teatro tem futuro, já que só a presença dos artista justifica um pagamento?

CHRIS ANDERSON: O cinema está numa situação tão difícil quanto a do jornalismo. Mas não vejo por enquanto nenhuma crise em Hollywood. Como vai ser o futuro? O sucesso do Netflix, o aluguel de DVDs com pagamento de uma assinatura mensal, aponta para um modelo baseado no interesse dos espectadores. Mas existe outro modelo que é a exibição de filmes pela TV, com o apoio de anunciantes. Os grandes produtores tendem a viabilizar seus filmes fazendo acordo com as emissoras de TV. É verdade que a produção independente vai ter dificuldade em fazer estes acordos, mas seus custos são também muito menores. Tudo isto é questão de tempo, de ajuste entre a produção e a demanda. A tendência é que o cinema independente trabalhe para atender uma audiência de nicho. Também as TVs vão ter que se adaptar: as TVs abertas já atuam num modelo gratuito, sustentado pelos anunciantes, mas vão enfrentar concorrência crescente num mundo em que as imagens de TV serão distribuídas pea internet…

Mas é bom lembrar também que o acesso à internet não é gratuito e que a economia do gratuito digital se sustenta nas costas do poder crescente dos provedores. Nos EUA produtores de conteúdo para a TV viraram provedores de internet, como foi o caso da Warner. No caso recente do Irã, quando houve censura do acesso ao twitter pela internet porque o governo exigiu o corte do acesso pelos provedores isto ficou bem claro… O senhor acredita que os provedores são as novas corporações a controlar o acesso à informação? A cultura do gratuito depende do acesso a computadores, o que grande parted a população mundial ainda não tem…

CHRIS ANDERSON: Não acredito que os provedores virem corporações capazes de controlar o acesso. É bom lembrar que telefones celulares também permitem acesso à internet. Quando se fala de inclusão digital, o tema é bastante complexo. Existem várias plataformas de acesso à rede e em muitas cidades as prefeituras estão abrindo áreas de acesso livre e gratuito… A questão da censura no Irã, como na China, é uma questão política…

Mas não há no seu livro uma reflexão política sobre os efeitos da economia do gratuito… Não há uma reflexão política sobre a censura à internet…

CHRIS ANDERSON: É verdade. Não escrevi sobre política  no meu livro…

Qual o efeito da crise econômica atual sobre a economia do gratuito, que no seu livro se chama “Freeconomics”?

CHRIS ANDERSON: Em tempos de recessão o gratuito é ainda mais atraente, tem um poder de marketing ainda maior. Afinal de contas, se você está sem dinheiro, o melhor preço é zero, não?

O senhor acredita que o custo da educação tende a ser zero. Como os professores vão se sustentar?

CHRIS ANDERSON: A oferta de educação gratuita na internet tende a aumentar de forma exponencial. Berkeley, Stanford e MIT são centros universitários americanos que já oferecem aulas de graça pelo YouTube. Já existem milhares cursos livres na internet… E o acesso à internet é hoje parte de qualquer escola e da vida de qualquer aluno… Além disto, os livros escolares serão oferecidos livremente pela internet, inclusive com imagens de video para atrair o interesse dos alunos… Como os professores vão se sustentar? Tirando as dúvidas dos alunos, o que sé poderá ser feito no contato direto entre o professor e o aluno. Neste caso, sim, haverá interesse em pagar pelo tempo do professor.

Por que o exemplar impresso do seu livro não é gratuito? O senhor disponibilizou o download pela internet gratis…

CHRIS ANDERSON: Os leitores pagam apenas a copia impressa. No Brasil, pagam também pela tradução para o português. Isto tem a ver com o custo do papel e dos profissionais envolvidos na produção do livro. O custo digital é praticamente zero e por isto posso dar gratuitamente o acesso ao livro e ao audiobook pela internet. Mas quem quiser a versão resumida de três horas do audiolivro terá que pagar.

Neste caso, paga-se para economizar tempo…

CHRIS ANDERSON: Exatamente. Tempo é dinheiro.

Fonte: O Globo

Publicaremos logo mais, em português, o trecho do livro Free que fala sobre o Brasil.

pixel [Entrevista] O jornalismo e a economia do gratuito: entrevista com Chris Anderson

Pagina 7 de 11« Primeira...56789...Última »