[Dicas de Leitura] Brasil ganha versões de “Irmãos Karamázov” e “Anna Karenina”, vindas direto do russo

Categoria: Dicas de Leitura, Informação e Cultura, Papo Cabeça

Gisele Arantes e Tiago Zanoli

“Os Irmãos Karamázov” e “Anna Kariênina” são, indubitavelmente, dois cânones da literatura mundial. Nos últimos anos, o leitor brasileiro teve a chance de se aproximar ainda mais dos textos desses dois mestres russos. A primeira obra, lançada em 1881 por Fiódor Dostoiévski, chega agora ao país em tradução direta do idioma original. Já o clássico de Liev Tolstói ganha versão mais apurada e fiel aos traços de linguagem do autor.

As traduções anteriores eram baseadas, especialmente, nas edições francesas e inglesas das duas obras. Na década de 90, a Editora 34 inaugurou a Coleção Leste, com clássicos de autores eslavos vertidos para o português direto do original, que tem “Os Irmãos Karamázov” entre os lançamentos mais recentes. Em seguida, veio a Cosac Naify, com a Coleção Prosa do Mundo e, recentemente, com a edição luxuosa de “Anna Kariênina”.

irmaossv6 [Dicas de Leitura] Brasil ganha versões de Irmãos Karamázov e Anna Karenina, vindas direto do russo“Os Irmãos Karamázov”, último romance de Dostoiévski, é considerado a obra-prima do autor por representar uma síntese dos temas que o perseguiram ao longo da vida. Com um tom filosófico e policialesco, a obra narra as desventuras da família Karamázov, cujo patriarca, Fiódor, é um beberrão e hedonista que fez fortuna casando-se com duas mulheres de origem aristocrática.

Do primeiro matrimônio, nasce o impulsivo Dimitri; com a segunda esposa, Fiódor tem o intelectual Ivan e o místico Alieksiêi. O conflito principal envolve a disputa entre Fiódor e seu primogênito pela herança materna e o amor de Grúchenka, jovem de má fama. Uma série de desencontros e mal entendidos culmina com uma tragédia que promove a ruptura familiar.

Publicada no final de 1880, pouco antes da morte do autor, a obra foi aclamada pela crítica e influenciou pensadores, como Nietzsche e Freud – que o considerava “o maior romance já escrito” –, e sucessivas gerações de escritores.

A primeira tradução brasileira direta do original foi realizada em 1944 por Boris Schnaiderman, que negou-se a reeditar seu trabalho por considerá-lo falho. As demais chegaram a partir de traduções indiretas. Nesta nova versão, segundo o tradutor Paulo Bezerra, o leitor encontrará diferenças substanciais, dado seu esforço em reconstruir o texto na sua feitura original.

“Procuramos recriar na língua de chegada o estilo dostoievskiano, às vezes meio tosco, com seus períodos longos, seus volteios sintáticos bruscos, sua pontuação pouco usual para mentes educadas pela chamada ‘boa escrita’”, explica o tradutor, que estudou língua e literatura russas na Universidade Lomonóssov, em Moscou.

Para ele, nesse romance, a linguagem é um traço identificador de cada personagem, de seu nível cultural e social e do seu temperamento. “O modo de ser e falar dessas personagens é produto imediato da concepção dostoievskiana de romance, na qual as personagens são independentes do autor”, acrescenta, no posfácio da obra.

Obra de arte

annacf4 [Dicas de Leitura] Brasil ganha versões de Irmãos Karamázov e Anna Karenina, vindas direto do russoEscrito entre 1873 e 1877, em forma de folhetim, pouco após a consagração de Tolstói com “Guerra e Paz”, Anna Kariênina foi considerado “perfeito como uma obra de arte” por Dostoiévski, opinião corroborada pelo conterrâneo Vladimir Nabokov, que destaca “a magia indefectível do estilo” do autor.

A obra é tida por muitos críticos como uma ponte entre as novelas realistas e modernas. No centro da ação, a relação extra-conjugal entre a protagonista – mulher belíssima casada como o aristocrata de meia-idade Kariênin – e um jovem militar.

Muito além de se restringir às dinâmicas da alcova, Tolstói discute, por meio dos personagens, aspectos relevantes da sociedade russa do final do século XIX, como os excessos da aristocracia, os direitos das mulheres e a hipocrisia religiosa, o que traduz a ânsia do escritor por participar dos debates em curso.

Antes de ser recebido de forma entusiástica pelos leitores, Tolstói chegou a abandonar a obra, após um ano e meio de trabalho. Além disso, por conta de seu conteúdo político, o editor recusou-se a publicar os capítulos finais de “Anna Kariênina” – que fizeram até Dostoiévski mudar de idéia sobre o romance. Contrariado, o autor financiou a publicação de folhetos avulsos.

Quanto ao estilo, o autor dá preferência à linguagem simples, até rude, em vez de construções requintadas. Segundo o tradutor Rubens Figueiredo, foi feito o possível para não desvirtuar o efeito brusco de certas composições de Tolstói nesta versão para o português.

Para se ter uma idéia, apenas uma frase – no capítulo XV – contém nada menos do que 146 palavras. “Gosto do que chamam incorreção. Ou seja, aquilo que é característico”, defendia Tolstói. “As frases longas e até dispersivas foram mantidas em sua integridade, ao contrário de outras traduções disponíveis, mesmo de língua inglesa e francesa, que as subdividem e como que as civilizam”, explica o tradutor.

Erros duplicados

Para o tradutor Antonio Carlos Vianna Braga, as versões indiretas podem fazer grande diferença para os leitores, sobretudo se o primeiro a verter o texto cometer algum erro, que pode ser duplicado na versão seguinte. “Os russos têm uma gramática diferente, o que exige um trabalho muito especializado”, observa.

Essa acuidade no processo de tradução, que para muitos pode soar como preciosismo, é, na verdade, a pedra de toque na canonização de obras literárias. É o que defende, por exemplo, o pós-doutor belga André Lefevere, professor de Filologia e especialista em estudos de tradução, que classifica – em seu livro “Tradução, Reescrita e Manipulação da Fama Literária” – aqueles que vertem obras literárias de “reescritores”.

“Acho que o tradutor é uma ponte fundamental entre culturas, línguas e épocas. É, acima de tudo, um trabalho criativo. O grande desafio é se ater ao original sem deixar de ser criativo, traduzir a obra de outro e, ao mesmo tempo, ter um texto próprio. Isso é trabalhar no limite do impossível”, afirma o escritor e tradutor Erlon Paschoal.

Antonio Carlos acrescenta que o tradutor é mal-remunerado e não consegue se sustentar com apenas uma tradução por mês. “Ele tem que correr atrás de outros trabalhos e fazê-los de forma rápida, por isso vemos barbaridades o tempo todo. Se em um clássico ou em um poema em inglês, que é um idioma mais comum, o cuidado precisa ser enorme, imagine com o russo”, completa ele, citando o antigo provérbio italiano de que “todo tradutor é um traidor” (um jogo de palavras com traduttore e traditore). ][

(Título Original: A arte de reescrever, via Gazeta Online)

Leia sem parar

tolstoixo5 [Dicas de Leitura] Brasil ganha versões de Irmãos Karamázov e Anna Karenina, vindas direto do russoLiev Tolstói
Anna Kariênina
Cosac Naify
816 páginas
Tradução: Rubens Figueiredo

Quanto: R$ 99, em média.


dostoievskigl9 [Dicas de Leitura] Brasil ganha versões de Irmãos Karamázov e Anna Karenina, vindas direto do russoFiódor Dostoiévski
Os Irmãos Karamázov
Editora 34
1040 páginas
Tradução: Paulo Bezerra
Quanto: R$98, em média.

[Romance] Coraline – Neil Gaiman – Leia o livro, assista o filme!

Categoria: Informação e Cultura, Literatura Estrangeira, Papo Cabeça, Romances

coralinebookef7 [Romance] Coraline   Neil Gaiman   Leia o livro, assista o filme! Está nos cinemas a animação Coraline, baseada no romance homônimo de Neil Gaiman, com direção de  Henry Selick, mesmo diretor de O Estranho mundo de Jack. Para deixar você preparado para o longa reunimos aqui um pequeno apanhado de bons motivos para ler o livro antes de ver o filme. Ambos são imperdíveis! Confira abaixo uma pequena sinopse do romance e o link para download do livro.

Para saber saber mais sobre Coraline e ver o trailer do filme, clique aqui para ver o tópico completo!


Sinopse:

A história de Coraline é de provocar calafrios. A narrativa dá muitas voltas e percorre longas distâncias, criando um “outro” mundo onde todos os aspectos de vida são pervertidos e desvirtuados para o macabro. Ao mesmo tempo sutil e cruel, o autor gosta de desafiar as imagens simples dos livros infantis tradicionais. As crianças vão se deliciar com o frio que correrá em suas espinhas durante a leitura e ficarão até agradecidas por existir um escritor que finalmente se recusa a tratar com condescendência uma platéia ávida por empolgantes contos de terror. Coraline (e não “Caroline”, como ela mesmo diz inflexivelmente) acaba de se mudar para um apartamento num prédio antigo. Seus vizinhos são velhinhos excêntricos e amáveis que não conseguem dizer seu nome do jeito certo, mas encorajam sua curiosidade e seu instinto de exploração. Em uma tarde chuvosa, consegue abrir uma porta na sala de visitas de casa que sempre estivera trancada e descobre um caminho para um misterioso apartamento “vazio” no quarto andar do prédio. Para sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado, e ela fica cara a cara com duas criaturas que afirmam ser seus “outros” pais. Na verdade, aquele parece ser um “outro” completo mundo mágico atrás da porta. Lá, há brinquedos incríveis e vizinhos que nunca falam seu nome errado. Porém a menina logo percebe que aquele mundo é tão mortal quanto encantador e que terá de usar toda a sua inteligência para derrotar seus adversários.

Coraline – Neil Gaiman

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[Papo Cabeça] Orgulho e Preconceito vai ganhar versão Zumbi

Categoria: Informação e Cultura, Papo Cabeça

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Adaptações de clássicos da literatura para novos formatos têm sido cada vez mais comuns. Aqui mesmo no blog você já viu várias, como clássicos da literatura em quadrinhos, audiobooks e até jogos. Recentemente Dom Casmurro virou minisérie, e no embalo de saber mais sobre a produção acabei tomando conhecimento de outro projeto, chamado “Mil Casmurros“, que consiste em um site colaborativo onde você encontra um montão de gente lendo trechos da obra e pode até mandar seu vídeo. Uma grande narrativa coletiva, uma forma de tornar universal uma das mais universais obras de nossa cultura.

Mas e quando a idéia é pegar um clássico, amado por gerações, e alterar a história de maneira irreparável, por exemplo, inserindo umas criaturas sombrias levantadas dos mortos? Há poucos dias publicamos no blog Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. O livro é um dos maiores orgulhos (sic) do povo inglês, já virou filme, mas desta vez vai ter um destino um tanto diferente.

A Chronicle books prepara-se para lançar Pride and Prejudice and Zombies, ou algo do tipo Orgulho, Preconceito e Zumbis, re-escrito por Seth Grahame-Smith.  Nas palavras da editora, o novo romance

… apresenta o texto original do tão adorado romance de Jane Austen, com novas cenas de ação com zumbis quebradores de ossos. No início da história, uma misteriosa peste começa a assolar o pacato vilarejo inglês de Meryton – e os mortos estão voltando à vida! A agressiva heroína Elizabeth Bennet está determinada a livrar-se da ameaça zumbi, mas logo ela é distraída pela chegada do altivo e arrogante Sr. Darcy. O resultado é uma deliciosa comédia de costumes com abundância de conflitos entre os dois jovens amantes — e conflitos ainda mais violentos com as enxurradas de sangue no campo de batalha no qual Elizabeth trava uma guerra contra hordas de mortos-vivos carnívoros. Completo com 20 ilustrações no estilo de C. E. Brock (o ilustrador original de Orgulho e Preconceito), esta edição insanamente divertida apresentará o clássico romance de Jane Austen para novas legiões de fãs.

(tradução livre de lendo.org)

O curioso é que na página do livro da versão Zumbi Austen é apresentada como co-autora do projeto, e cá com meus botões posso até entender a lógica da coisa: vamos fazer uma merda mercadológica tão grande com este livro que faça sua autora revirar na tumba. E daí surgiu Jane Austen versão morto-vivo. Se a moda pega, daqui a pouco veremos no mercado brasileiro títulos como Noite na taverna com Zumbis, O Alien Alienista, A Espaçonave Negreira, e por aí vai.

Síndrome de Pavão ou Como sobreviver em debates literários pela internet

Categoria: Papo Cabeça

O fórum do PDL tem 7 anos, e desde sempre seus visitantes travaram debates acalourados  sobre os mais diversos assuntos.  Como não podia deixar de ser, volta e meia um ou outro mais ávido se desentende no meio deste processo, gerando novos e apimentados debates. Como ninguém quer sair perdendo, encontramos um texto excelente, que certamente divertirá os frequentadores mais antigos e ajudará nessa árdua tarefa de discutir temas relevantes na internet!

Como sobreviver em debates literários pela internet:


1 – Faça uma lista de autores e críticos literários reconhecidos como clássicos e fundamentais. Dê preferência aos que não foram traduzidos em português ou àqueles cujas obras são raras de serem encontradas por aqui.

2 – Faça outra lista de citações de cada autor e crítico. Novamente, dê preferência às que não estão em português. Se for em latim, ainda melhor. As em português devem ser excessivamente obscuras, mas com um vocabulário que evidencie erudição.

3 – Separe as frases por assunto para que possam ser facilmente acessadas. Se não conseguir, navegue por sites e blogs para descobrir que expressões são comuns e eleja quais frases se enquadrariam ali.

4 – Ao utilizar a caixa de comentários dos sites e blogs, sempre ataque. Nada de propor questões ou parecer hesitante. Mostre estar sempre certo em tudo que diz. Cite os autores da primeira lista e reforce suas certezas com frases da segunda. Por exemplo, redija frases como “evidentemente o Brasil é muito ignorante e não leu Mendelssohn Heïgen-Bahn que prova o que digo quando me refiro ao nativus omnis proba de orbis na obra Essays of Music Literary

5 – Se algum outro leitor discordar de você, humilhe-o. Primeiro elegantemente, sugerindo que ele não leu o suficiente para sequer respirar perto de você. Se houver algum erro ortográfico, invalide o argumento dizendo que alguém com uma escrita tão ruim não merece resposta. Caso ele ainda insista, seja agressivo.

6 – Caso outros leitores apóiem o ponto de vista contrário, escreva comentários na caixa utilizando pseudônimos que, obviamente, apóiam sua opinião. Para que não fique tão evidente que é você mesmo, use web proxies.

7 – Se algo que escreveu foi completamente equivocado (por exemplo, você disse que Machado de Assis escreveu Iracema), diga que se trata de uma ironia e reclame que as pessoas são burras demais para perceber isso.

8 – Se nada disso der certo, puxe o saco do dono do blog.

9 – Se ainda assim não der certo, abra você mesmo um blog obscuro chamando a todos de facistas-nazistas-pseudo-intelectuais-iletrados e coloque um link para ele na caixa de comentários. Utilize um pseudônimo que indique que sua missão é ‘revelar’ a verdade, claro.

Fonte: Odisséia Literária
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