[Fragmentos Poéticos] Pela Fresta

Categoria: Fragmentos Poéticos, Informação e Cultura

fresta [Fragmentos Poéticos] Pela Fresta

Pela fresta você viu a minha festa. Eu estava nua e nem notei. E pela fresta você veio devagar e captou meus movimentos. Breves. Pela fresta você viu tudinho, você me invadiu, você prestou honrarias ao meu cansaço úmido, você cochilou um pouco e esperou que eu acordasse. Pela fresta você velou meu sono, amou minha insônia, você varou minha noite e esperou meu dia. Pela fresta você me adorou como eu adoro ser adorada, você olhou onde eu queria ser olhada e me permitiu, na distração, a glória. Você também descobriu meus segredos e soube que eu costumo falar sozinha em línguas estranhas, e você me tornou importante feito a dama das poesias; pela fresta você me fez poema e eu nunca mais desapareci. Pela fresta eu fui como nos livros: aquela para quem as cartas são escritas, para quem as melodias são inventadas, para quem o amor existe e para quem o sol nasce todas as manhãs. Pela fresta eu inventei você que me olhava, porque queria ser vista por um olho que não é meu. Pela fresta eu inventei o homem da fresta e nossos olhos se cruzaram num susto, fração de segundo. Pela fresta você viu minha festa e toda a bagunça no final. Você viu nas pequenezas dos meus míseros detalhes um pedaço bem grande do coração do mundo. Pela fresta você me viu e eu existi.

por Carla Jaia

Visite o Baile de Máscaras:

maskz [Fragmentos Poéticos] Pela Fresta

[Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras)

Categoria: Fragmentos Poéticos, Informação e Cultura

cecilian [Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras)

Rasgava todos os verbos, e se chamava Cecília. Certa vez gritou indecências raivosas para o moleque do outro lado da rua, e sempre era necessário que alguém segurasse seu corpinho miúdo que se irritava aos montes com coisas que pareciam quaisquer. Rasgava todos os verbos, e depois inventava de remendar alguns. Suminocair. Retrospeviver. Anabocantar. Os remendos de Cecília a gente nunca entendia. Brava feito um touro, com olhinhos de bezerro, linda como um segredo, uivava calada pra lua que era apenas dela. Cecília tinha de suas ternuras. Por isso às vezes me oferecia leite quente com chocolate e canela, e me pedia que eu sentasse para olhar seu álbum de fotografias. E eu via Cecília careteira, menininha mostrando a língua, e ela contava como havia sido dolorosamente feliz quando criança. E me mostrava os rascunhos antigos de desenhos mal feitos, e exibia tímida suas poesias mágicas e seu absurdo dom intelectual. Cecília era um touro, uma criança, um gênio. Por vezes a imaginei saindo de uma lâmpada de mil e uma noites, magra curvilínea dançando no ar. Explicando aos risos a terceira lei de Newton, e depois seriamente as leis de Deus e dos astros. Cecília também, além de remendar palavras, tecia cachecóis vermelhos no verão. E conhecia todos os folclores das matas. Mesmo sendo urbana e calçando sapatos lindos da moda. Sapatos que perdia numa escadaria, e que descalçavam o seu pé miúdo no final dos sonhos, logo após o baile. Um dia Cecília veio toda descabelada me contar que havia perdido em algum lugar sua máscara e que, a partir de então, seria bicho pra sempre. Então ela uivou inteira para a nossa lua e adormeceu pra sempre no vento da árvore dos segredos do nosso sempre avesso…

por Carla Jaia

Visite o Baile de Máscaras:

maskz [Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras)

pixel [Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras)

Pagina 4 de 41234