[Fragmentos Poéticos] A ronda

Categoria: Fragmentos Poéticos, Informação e Cultura

ronda [Fragmentos Poéticos] A ronda

O amor faz a ronda de fim de tarde
e encontra o menino perdido
em sua paixão arruinada
sem chão;
encontra o velho calado
enquanto sua antiga esposa
dança as agonias finas
de ser amante de outro.
O amor faz silêncio:
não cura.
O menino se torna homem
e ama
incontrolavelmente
incontestavelmente
irremediavelmente
um outro homem.
O velho nunca mais veio
- dizem que é coisa de morte.
A velha – em sua sabedoria -
faz amor mansinho ao amanhecer
hora da labuta
das crianças na escola
dos carros e das buzinas.
Ninguém ouve
o gemido baixinho do amor
todo enrugado sob o lençol bordado
(era presente de casamento)

O amor faz a ronda de fim de tarde
e conhece todas as despedidas
todos os desencontros
todos os desencantos.
Conhece as vontades também
e coloca em todas elas
uma gota de perigo.

 

Carla Jaia

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[Fragmentos Poéticos] Ais

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a lua [Fragmentos Poéticos] Ais

Entorno-me nas frestas

- quente e úmida -

como se deus me pedisse

um “ai”.

Ai!

Dói-me a cabeça e alegra-me

aquela parte funda

do corpo:

estou parindo um pedaço de amor

ou de deus.

Ai!

Mamãe disse que me acordaria

mas amanheceu batido feito a solidão:

o menino descalço me pediu

colo

entorpecente

moeda

flor;

a menina roeu a roupa velha do rato de roma

como se fosse um rei

- eu vi que ela fumava as angústias

do filho que estava por nascer.

Ai!

Como se o mundo acabasse amanhã,

ela ergueu a mãozinha pequena e pediu

- nem olhei!

Foi a última vez que sorriu.

Ai!

Meu colchão arrebentou em estrelas

tal e qual o corpo dele quebrado

em sangue e melodia

- sem saudade.

Ele não tinha nome

- eu sim.

Ai!

Entorno-me nas frestas e sei

que cada dor tem o tamanho inverso

da voz de quem grita

a minha se espalha aguda

no colo de mãezinha boa

a deles

- enorme -

faz silêncio cativo

cortante feito zumbido de flor.

Imensa.

Ai!

 

Carla Jaia

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[Fragmentos Poéticos] tão funda

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solidao [Fragmentos Poéticos] tão funda

Recicle o corpo da cidade e cante: ela renascerá límpida.

Porque a cidade é o seu corpo e as vidas percorrem seus vãos – você é tão funda!

E nesses vãos-labirintos adentram-se as feras – e eu digo “feras” mas deveria dizer “amigos”. Não posso. Tudo hoje mostra os dentes e faz meu medo cantar. “Não é minha culpa!” – gritou você, em defesa de sua bondade. Não, não é. Jamais foi. Paranoicamente, eu crio. Os vãos, as frestas, as feras, as finas adagas da noite-estrela: quando brilhou pela primeira vez, eu só queria ficar em casa. Ficar em casa. Ficar em casa. Nunca implorei juventude outra que não a vontade de bebericar o mundo – de mansinho.

Sair, só pra escutar o silêncio de quem não implora. Quem mais precisa, cala. Quem mais deseja, sonha. E faz de suas mãos roídas um pedaço do mundo. Em que eu piso. E me afundo nos vãos. Do corpo da outra. Sou eu quem, agora, implora: preciso tornar úteis minhas mãos pequenas. Plantar vida e arrancar sementes – ser passarinho.

Sair, só por você. Você que, sem nome, inventa a pureza do amor. Você que me explica que tudo isso – por mais triste que possa se mostrar – é amor. Até mesmo quando gritam “fique” na hora em que desejo partir. Você que me explica que ao amor a gente renuncia, sem culpa. Porque – qualquer que seja o nome – amor que segura, mata.

Você que não morreu. Mas é tão velha que parece deus.

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[Fragmentos Poéticos] maldizer-bendizer

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bocau [Fragmentos Poéticos] maldizer bendizer

Tinha medo do maldito mas, ainda assim, aprendeu a maldizer. Foi assim, quase sem notar: percebeu que aquilo funcionava. Antes era muda – silenciosa naquela infinita palidez dos invisíveis. Assustada. Mas aquilo funcionava: contar miúdas falhas da outra, do outro, daquela. Mesa farta, novas histórias: maldito o outro que errava, tropeçava, desandava, traía; maldito o outro que se permitia aparecer imperfeito – maldito o outro, e não importava a veracidade da maledicência. Maldito o outro, sempre. Maldito e risível. Reuniões maledicentes: muita graça – agora ela existia, a dona das histórias. A dona da palavra. Dona daquilo que mais temia: aquelas cócegas deliciosas na garganta que a faziam disparar palavras vãs, tantas palavras que a tantos agradavam, tantas desagradáveis, tantas. E era boa, a moça. Tão boa que lacrimejava fácil. Tão boa que recitava sonhos amanhecentes. Tão boa que acariciava.  No entanto, fosse o que fosse sua bondade, o maldito a havia tomado. Porque era fácil. Era simples ter histórias para contar: era coisa de gente. Aprendeu que as histórias boas não eram bem ouvidas. Não se espalhavam. E não faziam com que aqueles que se fartavam na mesa farta se voltassem ávidos para ela – para ela, para ela, para ela. Tão inteiros para ela…

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[Fragmentos Poéticos] (in) existências

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É de tudo o que deságua no escuro da manhã, do lado de lá do urbano, do lado de fora daqui, do lado lá longe de nós. Do outro lado da rua. Onde já não posso caber.  Lá mesmo, ela segurava uma sacolinha plástica, aberta ao céu, e esperava que caísse a estrela que cintilava no coração da mãe morta. Sempre eram estranhas essas juventudes outras, jamais acolhidas em nossos lados e círculos, em nossa festas, em nossas honras, no amor que sentíamos por nossos talentos vãos – nós, que éramos plenas de brilhantismos óbvios e conhecíamos as músicas da moda.

Ela não era eu – nunca na vida seria. Acreditava em corações queda-céu e sabia ler umas poucas palavras vogais – nada mais. O silêncio denunciava estupidez, diziam. Como se entendessem. Ela, que sabia disso, calava-se um pouco mais a cada tempo: era preferível fingir tolice a permitir que lhe roubassem os sonhos – aqueles poucos. E, porque ali vivia, ali também conhecia pedacinhos de morte que lhe feriam a pele. Sabia que o macho era perigoso e que algumas gotas mágicas tornavam a dor coisa esquecida e os perigos da noite, invisíveis. Comprava as gotas-mistério com o dinheiro que roubava secreta e com as moedas que pedia vítima. Fazia-se porque sabia. Sabia tanto, que doía – em toda a pele, no estômago, nas unhas e no pensamento.

Era humana inteira, veias trêmulas. Fazia vida ali, onde conseguia, enquanto eu romantizava mundos que não me feriam-carne; eu era um tanto porcelanada. Eu era poeta e queria falar das infinitas vidas possíveis. Mas aquilo ali era impossível. Se acontecia, era só porque o respirar existe e o desejo resiste. Acontecia vida ali porque havia também impossibilidade aqui – como se esses caminhos tão díspares dependessem um do outro para a parca existência de cada. Existíamos pouco, ela e eu. Mas a minha imagem era mais amada. E eu me aproveitei disso o quanto pude, até morrer.

por @Carla Jaia

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