[Fragmentos Poéticos] Desencontrada

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falling [Fragmentos Poéticos] Desencontrada

O que aconteceu foi um resguardo mal-guardado. Um arrepio de força foi o suficiente para que saísse em disparada. Livre, louca, as pernas bambas tortas soltas – soltou-se em um grito, e correu, correu, correu. Correu fugindo do Pai, do Filho e do Espírito Maldito que a visitava insistentemente, que a abandonava infinitamente, que a buscava violentamente. Correu porque lhe foi possível correr: ela fazia apenas o que lhe parecia perfeitamente possível, desde sempre. Correu porque suas pernas permitiram – mais: porque suas pernas convidaram. Porque suas pernas aflitas marcadas queriam mais: almejavam o impossível. E ela, cabecinha temerosa, insistiu no possível que lhe foi oferecido pelas pernas. Ela era a cabeça, ou ao menos assim pensava – e acreditava que o corpo era apenas uma quase descartável parte dela. Não se percebia inteira: era feita em pedaços de coisas que, ora a definiam, ora a ela pertenciam. E gostava de achar que obedecia à razão, parte que – tinha quase certeza – a definia humana. Mas, naquele instante, o corpo havia se rebelado. Contra o resguardo, contra o destino traçado: contra a ditadura das possibilidades. Insistia no impossível.

As pernas estavam tão, tão vigorosas, que nada lhe restou senão acompanhá-las desenfreada. As mesmas pernas que o outro certa vez abriu sem que ela, cabeça, desejasse; sem que elas, as próprias pernas, concedessem. Aliás, quanta incerteza lhe causariam as lembranças, caso tivesse tempo – na correria – de recordar. Perguntaria-se quem, naquele violento então, havia sido sua vontade, sua dona, sua verdade: quem? Quem, se nem a razão nem o corpo haviam desejado? Porque ao outro tantas vezes havia pertencido: tantas vezes do Pai, do Filho e do Espírito havia sido. Tantas vezes havia tomado como necessária doce violência do cotidiano: porque era para o seu bem. E as violências explícitas, por serem íntimas, quase sempre lhe pareceram naturais: simples falhas do outro em acessos de raiva, angústia ou bebedeira. Perdoava: sempre boa, sempre gentil, sempre perdoava. Era como se para isso houvesse nascido: anjo benevolente. A razão – sabe-se lá se era razão – ensinava-lhe as glórias do amor e da doação. Dava-se, dava-se, dava-se em cada pedacinho; dava-se mesmo quando a oferenda implicava na perda de uma pequena preciosidade. Perdia preciosidades – de quem? – e doía. E agora perdia-se. Perdia-se enquanto corria: perdiam-se as pernas vigorosas nos pensamentos circulantes. Perdia-se cabeça, perdia-se corpo inteiro. Notava agora que, não: nem seu corpo nem sua cabeça haviam sido seus donos até então: havia se construído como frágil inexistência que só se dava conta de ali estar quando sentia dor. Ela, que nada havia sido senão. Senão? Ela, que finalmente fugiu do resguardo e não guardou coisa alguma. Nada ali lhe pertencia – apenas ela havia sido pertence. Correu da vida; não de toda a vida: daquela. Correu até o precipício como se fosse voar. Alçou voo no até amanhã e mergulhou inteira onde não puderam saber…

*

Nunca mais tiveram notícias. E nunca mais valeu à pena ouvir o que falavam dela: eles nada sabiam. Não conheciam o vigor de suas pernas nem a delicadeza com que seu pensamento – quase sem que ela própria se desse conta – havia durante aquela vida inteira trabalhado na invenção de uma nova vida. Apenas em um ponto eles tinham razão: ela era uma perdida; e só os desencontrados são capazes de romper correntes.

por Carla Carrion

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Créditos da imagem: Stella Beli

[Fragmentos Poéticos] Flor de outonos alguns

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girlw [Fragmentos Poéticos] Flor de outonos alguns

Não imprimia muito estilo no modo de vestir. Podia prescindir de qualquer coisa que fizesse marca em sua aparência. Tinha, no entanto, olhar marcante. Mas marcava simples, singela, silenciosa. E esse desestilo era muitas vezes confundido com falta de criatividade. Com vontade miúda. Coisa de quem deseja pouco. Porque dizem muito os corpos: o dela, de marcas mais-do-mesmo, dizia “ausência”. Dizia “ausência” e dizia quase com tanta verdade que muitos chegavam a acreditar que ela estava ausente. Mas como, como, como erravam! Presentificava-se inteira ali onde não viam. Era uma dessas tolas rainhas que crescem vigorosamente nas paredes do que é íntimo. Intimismo. Introspecção. Uma apreciação da privacidade. Algum medo de que soubessem. Porque se soubessem. Não sabia bem o que aconteceria. Mas temia. Então seguia desestilosa. Por vezes deixando cair de si – como se fosse pétala – uma vermelhidão deliciosa de amanhecer. Amanhecia às vezes. Era nessas horas que abandonava a falta de estilo, não por um estilo qualquer, mas por uma suave e roçante nudez. Quando caíam-lhe as pétalas. Flor de outonos alguns.

por Carla Carrion

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Créditos da imagem: Silvia Abad

[Fragmentos Poéticos] Lua Minguante

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2657409930 0bbddca232 [Fragmentos Poéticos] Lua Minguante

Lua nova, estrela guia, Lola desconhecia a própria idade. Parecia às vezes que minguava de juventude, mesmo que suas belas avantajadas formas contassem história de uma vida longa, vivida, marcada nas linhas do rosto. “Jovens são minguantes, não crescentes” – afirmava ela com toda sua sabedoria lunar. Porque a juventude lhe sugava a concretude do corpo e fazia com que, a cada estalo de desejo, parecesse que a morte estava a rondar. Lola era uma cidade inteira sob o céu estrelado, marcada por luzes, labaredas, brita e medo. Alguma vontade forte, intensa, e o resto era uma perigosa imensidão. Lola um dia foi levada de carro para o abrigo dos loucos.

E foi lá que o tempo dançou insano e ela nunca mais soube o ano, o mês ou o dia da semana. Curiosamente conhecia as horas, que eram horas de sua derradeira rejuvenescência. De mulher marcada ganhou os contornos de uma bela jovem e visitou bailes, homens, namorados. Não quis casar, que era cansativo, e a bela jovem se tornou mocinha, de 15 anos e desengonçada. Sorria aflita em seu corpo lúcido e corria firme com suas pernas livres. De mocinha a pré-púbere, cada vez mais nova, Lola se tornou Lolita e bebê sem colo. E em novembro de seu aniversário terminou o tempo do qual ela era dona. Há quem diga, sem saber, que morria ali uma velhinha torta. Só Lola sabia da dor de ser criança morta. Ou lua crescente que minguou sozinha.

por Carla Carrion

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Créditos da imagem: Anastase Kyriakos

[Fragmentos Poéticos] Dos segredos abertos dela

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Era despudorada aquela minha vontade. De ouvir os segredos duros da mulher silenciosa. E ela palpitava em silêncio, a alma aos gritos. O rosto era arredondado, os olhos escuros, e tinha os lábios carnudos. Havia quem dissesse que os traços eram grosseiros, outros sequer notavam. A quem desejasse ver, no entanto, aquele rosto era puro gozo de entardecer. Era desejo. Criava filhos. Três ou quatro, não me lembro bem. Abocanhava os detalhes do dia com vigor e o trabalho na casa cheirava ao mais fino dos cuidados. O filho mais novo a queria bem, o mais velho sonhava longe, a do meio cantava ao anoitecer. Talvez houvesse um quarto filho, diagnosticado com algum problema que ninguém além dos médicos compreenderia ao certo. Ela se espremia em silêncios e vontades que mal conhecia: e trabalhava dia e noite ao infinito. A casa, o chão, a feira, a rua, os postes, a lua, a água na calçada. O mundo escada abaixo, as pernas cansadas, os filhos distraídos, o tempo que passava. Um bêbado, um homem, um medo. Aqueles contos de sei lá quando contados pela professora das séries iniciais que havia cursado. Tempos antigos de escola. Era bom saber que ainda sabia ler. Algumas cartas eram importantes. Outras de nada valiam. O vento lhe comia os dentes e os sonhos, mas quase sempre havia um pouco de música. Raramente havia dança. Era mulher silenciosa. Tinha uns poucos estranhos medos que a impediam de enxergar a coragem. Achava que ter levado a vida até ali não era mais do que sua obrigação. Acreditava que a roupa lavada era o destino. Por isso, nem por um segundo, exigia reconhecimento, gratidão ou glória.

Era despudorada minha vontade. De me desepejar no segredos abertos dela: segredos que saberiam cantar sem pudores a assustadora melodia de meus obscuros. De nossas algemas.

por Carla Carrion

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[Fragmentos Poéticos] Se eu calar a fêmea…

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Se eu calar a fêmea, o que me restará? As palavras certas, mas jamais certeiras e muito bem talhadas feito estátuas mortas? A voz, a voz, a voz que não amolece no canto da boca? A resposta dura, bem feita, insossa? É a fêmea quem fala, quem pulsa, quem ama, é a fêmea em versos tolices sonhos. A fêmea em sexo, vontade, fúria. Fêmea em lamúria. Mas é sempre a fêmea quem grita aqui e desencadeia minhas letras vãs – todas tortas, letras impossíveis de nossas manhãs…

Se eu calar a fêmea, nada mais me resta, a não ser os sinos da igreja antiga e aquela saudade mal pronunciada. Nada dito. Tudo calado cruelmente cortando os verbos. E papéis amarelados gastos pelo tempo. Rotos, sem vida, pobres documentos. Nem um vinho tinto pra contar história, nem a nossa língua perfurando corpos. Nada de serpentes no meu Paraíso…

Se eu calar a fêmea, resta-me um passado.  Passado parado duro sem voltas. Tempo mudo estático feito de uma linha. Nada da elipse de meus saltos gritos. Nada da mulher que envenena estrelas…

por Carla Jaia

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[Fragmentos Poéticos] A um menino

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meninoderua [Fragmentos Poéticos] A um menino

Devo dizer, menino, que não posso ouvir a sua história enquanto me apego à minha falsa honradez. Não posso ouvir seus desatinos, seus segredos de becos e de pés no chão, a primeira arma de fogo na sua mão, não posso ouvir esses destroços, menino, se a piedade é o que me toma e se invento, em meus sonhos seguros, o que seria melhor para você. Não posso ouvir você, menino, se só vejo erro. Sinto tonturas enquanto ouço sua voz, tonturas de grávida, eu tenho enjôos de parir você pela boca. Pela boca de onde sai a minha palavra certa e rígida, minha palavra treinada no bom tom que me ensinaram. Queria saber ouvir e silenciar, e depois deixar a palavra dançar sem se constranger. Dar um basta em minha vontade de assepsia e calcar meus pés descalços no chão que nós pisamos. Gosto dos seus olhos. Eu queria não ser anjo, menino, e dar umas férias à minha dama de companhia. Queria abandonar a meiguice estrondosa da minha voz suave e aprender a falar feito gente. Queria descascar. Queria que você entendesse um pouco dessa coisa de ser mulher e de achar que, para tal, é importante ser sutil. Tivesse eu um pouco de coragem lançaria minha boca em tosses sangrentas, adoeceria sem dó a dor do mundo, e adormeceria aos apelos da noite vazia. Em silêncio. Ouviria sua voz, então, menino das ruas. Ouviria nossa voz, de menino e menina, de homem e mulher, nossa voz de gente, nossa voz de bicho, gritaria ao seu lado meu urro de leoa e não temeria as feridas que você desenha. Só então me sentiria à vontade para cobrir você com meu lençol mais elegante e para cantar musiquinhas de ninar. Só depois de ouvir a sua voz, criança, eu voltaria a ser princesa e reinventaria sem vergonha a minha delicadeza. Se me envergonho hoje de ser delicada, é tudo porque ando calando meus urros numa farsa medrosa. Tenho medo, criança. Mas aí está você que não me deixa mentir.

por Carla Jaia

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maskz [Fragmentos Poéticos] A um menino

Ilustração de Gilmar Fraga

[Fragmentos Poéticos] A espiral do vôo da borboleta

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fbutterfly2m911ccd7 [Fragmentos Poéticos] A espiral do vôo da borboleta

O baile se bailava sozinho enquanto ela pensava. E pensava. Pensava lá e cá, feito uma adolescente que talvez jamais tenha sido, tentando decidir se iria ou não. E ele a convidou para dançar. Não era um príncipe. O que importava? Ergueu-se um pouco aflita, sem jeito em sua magreza, ainda naquela dúvida que lhe balançava a alma. Ora, é pouca coisa, só uma dança. E foi. Rodopiando sem graça em seu vestido lilás. Então se arriscou nas palavras: e disse palavras proibidas no ouvido de seu par. Disse assim bem depressa pra se envergonhar depois. E ele não se fez de rogado e apertou os quadris ossudos da dançarina indiscreta. Ele, homem. Ela, frágil. Corando como fazia tempo não sabia corar. E balançando o corpo num balanço tímido. Pensando com certa graça: velha também pode dançar. Ele de aliança no dedo. Casado. Mais proibido, mais vontade, e ela bem queria lembrar se ainda sabia mexer os quadris. Se ainda sabia fazer. Sabia. Ele queria se divertir e não se perdia em pudores. Prendia o corpo no dela, levou-a prum outro lugar. Ela sabia que aquilo era feio, muito feio, e por isso mesmo achava bonito de doer. Fosse ele mais atento teria notado no riso dela a melodia silenciosa de um vôo de borboleta, em espirais apressadas e coloridas, uma juventude fêmea. Sorte dela que ele não notou. Ou teria ele se apaixonado pelas espirais infinitas da juventude tardia e a convidaria para mais que um vôo. Ela, então, na pressa de aceitar o amor fácil,  não teria tempo de aproveitar a tão recente solidão que lhe crescia e à qual, pouco a pouco, afeiçoava-se.  Não saberia, então, a borboleta que era. Por isso foi tão feliz na dor da despedida. Sabia: nada mais que uma noite. O resto do tempo era dela. Inteiramente dela. “Velha, pois sim. De tanto tempo de vida, sou mais menina que antes.” E foi-se em espiral no vôo do riso livre. Borboleta.

por Carla Jaia

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[Fragmentos Poéticos] Pela Fresta

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fresta [Fragmentos Poéticos] Pela Fresta

Pela fresta você viu a minha festa. Eu estava nua e nem notei. E pela fresta você veio devagar e captou meus movimentos. Breves. Pela fresta você viu tudinho, você me invadiu, você prestou honrarias ao meu cansaço úmido, você cochilou um pouco e esperou que eu acordasse. Pela fresta você velou meu sono, amou minha insônia, você varou minha noite e esperou meu dia. Pela fresta você me adorou como eu adoro ser adorada, você olhou onde eu queria ser olhada e me permitiu, na distração, a glória. Você também descobriu meus segredos e soube que eu costumo falar sozinha em línguas estranhas, e você me tornou importante feito a dama das poesias; pela fresta você me fez poema e eu nunca mais desapareci. Pela fresta eu fui como nos livros: aquela para quem as cartas são escritas, para quem as melodias são inventadas, para quem o amor existe e para quem o sol nasce todas as manhãs. Pela fresta eu inventei você que me olhava, porque queria ser vista por um olho que não é meu. Pela fresta eu inventei o homem da fresta e nossos olhos se cruzaram num susto, fração de segundo. Pela fresta você viu minha festa e toda a bagunça no final. Você viu nas pequenezas dos meus míseros detalhes um pedaço bem grande do coração do mundo. Pela fresta você me viu e eu existi.

por Carla Jaia

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maskz [Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras)

[Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras)

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cecilian [Fragmentos Poéticos] Cecília (Baile de Máscaras)

Rasgava todos os verbos, e se chamava Cecília. Certa vez gritou indecências raivosas para o moleque do outro lado da rua, e sempre era necessário que alguém segurasse seu corpinho miúdo que se irritava aos montes com coisas que pareciam quaisquer. Rasgava todos os verbos, e depois inventava de remendar alguns. Suminocair. Retrospeviver. Anabocantar. Os remendos de Cecília a gente nunca entendia. Brava feito um touro, com olhinhos de bezerro, linda como um segredo, uivava calada pra lua que era apenas dela. Cecília tinha de suas ternuras. Por isso às vezes me oferecia leite quente com chocolate e canela, e me pedia que eu sentasse para olhar seu álbum de fotografias. E eu via Cecília careteira, menininha mostrando a língua, e ela contava como havia sido dolorosamente feliz quando criança. E me mostrava os rascunhos antigos de desenhos mal feitos, e exibia tímida suas poesias mágicas e seu absurdo dom intelectual. Cecília era um touro, uma criança, um gênio. Por vezes a imaginei saindo de uma lâmpada de mil e uma noites, magra curvilínea dançando no ar. Explicando aos risos a terceira lei de Newton, e depois seriamente as leis de Deus e dos astros. Cecília também, além de remendar palavras, tecia cachecóis vermelhos no verão. E conhecia todos os folclores das matas. Mesmo sendo urbana e calçando sapatos lindos da moda. Sapatos que perdia numa escadaria, e que descalçavam o seu pé miúdo no final dos sonhos, logo após o baile. Um dia Cecília veio toda descabelada me contar que havia perdido em algum lugar sua máscara e que, a partir de então, seria bicho pra sempre. Então ela uivou inteira para a nossa lua e adormeceu pra sempre no vento da árvore dos segredos do nosso sempre avesso…

por Carla Jaia

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