[Fragmentos Poéticos] (in) existências

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É de tudo o que deságua no escuro da manhã, do lado de lá do urbano, do lado de fora daqui, do lado lá longe de nós. Do outro lado da rua. Onde já não posso caber.  Lá mesmo, ela segurava uma sacolinha plástica, aberta ao céu, e esperava que caísse a estrela que cintilava no coração da mãe morta. Sempre eram estranhas essas juventudes outras, jamais acolhidas em nossos lados e círculos, em nossa festas, em nossas honras, no amor que sentíamos por nossos talentos vãos – nós, que éramos plenas de brilhantismos óbvios e conhecíamos as músicas da moda.

Ela não era eu – nunca na vida seria. Acreditava em corações queda-céu e sabia ler umas poucas palavras vogais – nada mais. O silêncio denunciava estupidez, diziam. Como se entendessem. Ela, que sabia disso, calava-se um pouco mais a cada tempo: era preferível fingir tolice a permitir que lhe roubassem os sonhos – aqueles poucos. E, porque ali vivia, ali também conhecia pedacinhos de morte que lhe feriam a pele. Sabia que o macho era perigoso e que algumas gotas mágicas tornavam a dor coisa esquecida e os perigos da noite, invisíveis. Comprava as gotas-mistério com o dinheiro que roubava secreta e com as moedas que pedia vítima. Fazia-se porque sabia. Sabia tanto, que doía – em toda a pele, no estômago, nas unhas e no pensamento.

Era humana inteira, veias trêmulas. Fazia vida ali, onde conseguia, enquanto eu romantizava mundos que não me feriam-carne; eu era um tanto porcelanada. Eu era poeta e queria falar das infinitas vidas possíveis. Mas aquilo ali era impossível. Se acontecia, era só porque o respirar existe e o desejo resiste. Acontecia vida ali porque havia também impossibilidade aqui – como se esses caminhos tão díspares dependessem um do outro para a parca existência de cada. Existíamos pouco, ela e eu. Mas a minha imagem era mais amada. E eu me aproveitei disso o quanto pude, até morrer.

por @Carla Jaia

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maskz [Fragmentos Poéticos] (in) existências

[Fragmentos Poéticos] Intimista

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tarde [Fragmentos Poéticos] Intimista

Porque o caminho da tarde é sereno: desliza úmido. E afoga meus valores, meus preceitos, minhas vontades: a tarde se torna viva para o nada e para o nada ela dança, dança feito bailarina em chamas. Não penso mais. Não hoje… Hoje eu deixo que ela tome minha mão – amante querida – e me leve aos escorregões do desejo que se impõe. Que me convida e me derruba. Como se fosse desejo de. Mas não é. É mais fluido que isso. É mais forte que isso. É abertamente delicado no íntimo das coisas que respiram. A tarde respira quente, sopra seu inferno aqui. Aqui, ali, onde for: a tarde tem nome feminino mas não tem gênero. É ele e ela: é nós. A tarde tem um nome que desata os nós, porque seu nome rasga. Nome que se assemelha ao meu por causa da letra R que perfura a coisa inteira. Desintegra. Desfaz. Faz tudo em poros atravessáveis. Hoje, da tarde de que sou feita, sou atravessada por inverdades múltiplas que vem contar seus planos. Então, agulha fina me tece novamente. Porque aos poucos a noite chega. Exigente. Também tem nome feminino. Também é líquida. Mas vem para silenciar, toda intimista. A noite – tantos temem! Mas é muito, muito mais gentil. É linha reta que estanca a ansiedade.

por Carla Jaia

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maskz [Fragmentos Poéticos] Intimista

[Fragmentos Poéticos] Amantes

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acis galatea [Fragmentos Poéticos] Amantes

Tocaram-se as mãos de leve. Era escuro e eles olhavam as estrelas. Eram ásperos como se não conhecessem ternura. Olhavam as estrelas porque nada mais tinham para fazer e, de leve, tocavam as mãos porque fazia frio e porque sentiam um na pele do outro aquela vontade escondida exacerbada que em breve se faria viva. Viveram. Quase sem notar: um pouco porque tremiam, um pouco porque a vontade exigia. Foi num instante único, sob as estrelas, sérios e raivosos: um sussurrando nomes desconhecidos, outro calado ofegante fingindo não ouvir. Eram toques-rugidos, vibrantes, cariciosos. As mentes em outros mundos sonhando talvez outros sonhos. Um fio de prazer correndo ali, tão sem vida que os deixava ainda mais excitados pelo sofrimento indolor de vivenciar um instante que logo morreria. Eram lindos e se deitaram pesados enquanto as estrelas ainda estavam. Eram belos como tudo aquilo que não se vê: deslizavam silenciosos como os pecados que as famílias insistiam em varrer para os bueiros e valas. Eram: em meio a bueiros, sonhos e vontades perdidas. A língua desconhecida da madrugada. O urbano em sua mais humana forma, o inaudível, o impossível.

Olharam as estrelas porque nada mais tinham para fazer. Murmuraram-se baixinho: “estamos ocos”, e então um milésimo de segundo de amor viveu ali. Oco. Ocos, preencheram-se suaves e buscaram se fazer inteiros até a noite passar. E, porque tudo demora muito quando se está acordado, esqueceram as estrelas e se entreolharam. Fitando-se em silêncio, sabiam que partiriam, cada qual para um lado – para lados desconhecidos. E que era impossível seguirem-se. Tocaram-se as mãos de leve, porque fazia frio novamente. Mexeram-se num certo incômodo, porque já não eram amantes: eram irmãos. E, como era impossivelmente assustador compreender a força disso, decidiram apressar a manhã e a despedida, antes que o amor os tomasse por completo e que, incestuosos, inventassem de sair de mãos dadas, não mais por causa do frio. “Estamos ocos”, murmuravam-se repetidamente, enquanto se afastavam lentamente, deixando um no outro um pedacinho de que?

Despediram-se como se nunca mais fossem voltar…

por @Carla Jaia

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maskz [Fragmentos Poéticos] Amantes

[Fragmentos Poéticos] Ela, infinita

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baile ela infinita [Fragmentos Poéticos] Ela, infinita

Ela. Tenho medo de todos os erros que cometo ao falar dela: tenho medo de que, na tentativa de me permitir atravessar por ela, eu a faça de uma fluidez cômoda. Temo arrancar dela a carne e preenchê-la de poesia inócua, estética adorável pra burguês ver. Porque escrevo do alto de um apartamento. As luzes das múltiplas casas que ela habita iluminam minha noite: eu me aconchego no tormento dela e invento palavras bonitas. Deve ser por isso que faço nela carícias de escape: a morte, a fuga, o atirar-se do terraço: o fim. Eu a finalizo antes que ela me incomode demais: antes que ela machuque minha carne sossegada, carne de meu corpo macio sedentário.

Ela, que é nômade. E, sim, suas múltiplas casas são poesia – caso o poeta assim deseje. Mas ela existe: ela é concreta na alegria e na dor de seus movimentos e tremores, no trabalho diário, na casa da patroa, nos braços do amante, no desassossego dos filhos. Ela é concreta quando abandona: ela às vezes é o que chamam de mãe desnaturada – desvirtua a natureza porque se cansa de seus falsos desígnios. Ela, ora vive para seus próprios propósitos, ora se reflete na intenção do outro. Ela é espelho rachado, gorda, bonita, miúda, menina…

Se não deixo de poetizá-la, é porque tenho medo do caminho tedioso-rasgante que ela denuncia. As horas que não passam, a prisão – ela já foi louca, criminosa, ela ainda hoje vive. Quão confortável é acreditar na morte: ela falecida fazendo sua festa-deusa em outro mundo. Ela, mulher. Eu a vi – em carne e sangue e vida e voz – certa vez. Ou tantas vezes, tantas vezes: mesmo nas vezes em que não a reconheci. E sei que sua vida continua, como a minha. Por isso quero fazê-la hoje sem fim. Tecer contínuo de uma vida, ou tantas. Hoje ela não termina… Hoje ela insiste na ferida e diz que minhas soluções fáceis nem chegam a arranhar a teia infinita de que é feita…

por @Carla Jaia

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maskz [Fragmentos Poéticos] Ela, infinita

Foto: Isabella Kassow

[Fragmentos Poéticos] Desencontrada

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falling [Fragmentos Poéticos] Desencontrada

O que aconteceu foi um resguardo mal-guardado. Um arrepio de força foi o suficiente para que saísse em disparada. Livre, louca, as pernas bambas tortas soltas – soltou-se em um grito, e correu, correu, correu. Correu fugindo do Pai, do Filho e do Espírito Maldito que a visitava insistentemente, que a abandonava infinitamente, que a buscava violentamente. Correu porque lhe foi possível correr: ela fazia apenas o que lhe parecia perfeitamente possível, desde sempre. Correu porque suas pernas permitiram – mais: porque suas pernas convidaram. Porque suas pernas aflitas marcadas queriam mais: almejavam o impossível. E ela, cabecinha temerosa, insistiu no possível que lhe foi oferecido pelas pernas. Ela era a cabeça, ou ao menos assim pensava – e acreditava que o corpo era apenas uma quase descartável parte dela. Não se percebia inteira: era feita em pedaços de coisas que, ora a definiam, ora a ela pertenciam. E gostava de achar que obedecia à razão, parte que – tinha quase certeza – a definia humana. Mas, naquele instante, o corpo havia se rebelado. Contra o resguardo, contra o destino traçado: contra a ditadura das possibilidades. Insistia no impossível.

As pernas estavam tão, tão vigorosas, que nada lhe restou senão acompanhá-las desenfreada. As mesmas pernas que o outro certa vez abriu sem que ela, cabeça, desejasse; sem que elas, as próprias pernas, concedessem. Aliás, quanta incerteza lhe causariam as lembranças, caso tivesse tempo – na correria – de recordar. Perguntaria-se quem, naquele violento então, havia sido sua vontade, sua dona, sua verdade: quem? Quem, se nem a razão nem o corpo haviam desejado? Porque ao outro tantas vezes havia pertencido: tantas vezes do Pai, do Filho e do Espírito havia sido. Tantas vezes havia tomado como necessária doce violência do cotidiano: porque era para o seu bem. E as violências explícitas, por serem íntimas, quase sempre lhe pareceram naturais: simples falhas do outro em acessos de raiva, angústia ou bebedeira. Perdoava: sempre boa, sempre gentil, sempre perdoava. Era como se para isso houvesse nascido: anjo benevolente. A razão – sabe-se lá se era razão – ensinava-lhe as glórias do amor e da doação. Dava-se, dava-se, dava-se em cada pedacinho; dava-se mesmo quando a oferenda implicava na perda de uma pequena preciosidade. Perdia preciosidades – de quem? – e doía. E agora perdia-se. Perdia-se enquanto corria: perdiam-se as pernas vigorosas nos pensamentos circulantes. Perdia-se cabeça, perdia-se corpo inteiro. Notava agora que, não: nem seu corpo nem sua cabeça haviam sido seus donos até então: havia se construído como frágil inexistência que só se dava conta de ali estar quando sentia dor. Ela, que nada havia sido senão. Senão? Ela, que finalmente fugiu do resguardo e não guardou coisa alguma. Nada ali lhe pertencia – apenas ela havia sido pertence. Correu da vida; não de toda a vida: daquela. Correu até o precipício como se fosse voar. Alçou voo no até amanhã e mergulhou inteira onde não puderam saber…

*

Nunca mais tiveram notícias. E nunca mais valeu à pena ouvir o que falavam dela: eles nada sabiam. Não conheciam o vigor de suas pernas nem a delicadeza com que seu pensamento – quase sem que ela própria se desse conta – havia durante aquela vida inteira trabalhado na invenção de uma nova vida. Apenas em um ponto eles tinham razão: ela era uma perdida; e só os desencontrados são capazes de romper correntes.

por Carla Carrion

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maskz [Fragmentos Poéticos] Desencontrada

Créditos da imagem: Stella Beli

[Fragmentos Poéticos] Flor de outonos alguns

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girlw [Fragmentos Poéticos] Flor de outonos alguns

Não imprimia muito estilo no modo de vestir. Podia prescindir de qualquer coisa que fizesse marca em sua aparência. Tinha, no entanto, olhar marcante. Mas marcava simples, singela, silenciosa. E esse desestilo era muitas vezes confundido com falta de criatividade. Com vontade miúda. Coisa de quem deseja pouco. Porque dizem muito os corpos: o dela, de marcas mais-do-mesmo, dizia “ausência”. Dizia “ausência” e dizia quase com tanta verdade que muitos chegavam a acreditar que ela estava ausente. Mas como, como, como erravam! Presentificava-se inteira ali onde não viam. Era uma dessas tolas rainhas que crescem vigorosamente nas paredes do que é íntimo. Intimismo. Introspecção. Uma apreciação da privacidade. Algum medo de que soubessem. Porque se soubessem. Não sabia bem o que aconteceria. Mas temia. Então seguia desestilosa. Por vezes deixando cair de si – como se fosse pétala – uma vermelhidão deliciosa de amanhecer. Amanhecia às vezes. Era nessas horas que abandonava a falta de estilo, não por um estilo qualquer, mas por uma suave e roçante nudez. Quando caíam-lhe as pétalas. Flor de outonos alguns.

por Carla Carrion

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maskz [Fragmentos Poéticos] Flor de outonos alguns

Créditos da imagem: Silvia Abad

[Fragmentos Poéticos] Lua Minguante

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Lua nova, estrela guia, Lola desconhecia a própria idade. Parecia às vezes que minguava de juventude, mesmo que suas belas avantajadas formas contassem história de uma vida longa, vivida, marcada nas linhas do rosto. “Jovens são minguantes, não crescentes” – afirmava ela com toda sua sabedoria lunar. Porque a juventude lhe sugava a concretude do corpo e fazia com que, a cada estalo de desejo, parecesse que a morte estava a rondar. Lola era uma cidade inteira sob o céu estrelado, marcada por luzes, labaredas, brita e medo. Alguma vontade forte, intensa, e o resto era uma perigosa imensidão. Lola um dia foi levada de carro para o abrigo dos loucos.

E foi lá que o tempo dançou insano e ela nunca mais soube o ano, o mês ou o dia da semana. Curiosamente conhecia as horas, que eram horas de sua derradeira rejuvenescência. De mulher marcada ganhou os contornos de uma bela jovem e visitou bailes, homens, namorados. Não quis casar, que era cansativo, e a bela jovem se tornou mocinha, de 15 anos e desengonçada. Sorria aflita em seu corpo lúcido e corria firme com suas pernas livres. De mocinha a pré-púbere, cada vez mais nova, Lola se tornou Lolita e bebê sem colo. E em novembro de seu aniversário terminou o tempo do qual ela era dona. Há quem diga, sem saber, que morria ali uma velhinha torta. Só Lola sabia da dor de ser criança morta. Ou lua crescente que minguou sozinha.

por Carla Carrion

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Créditos da imagem: Anastase Kyriakos

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